A Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp) promoveu, nesta quinta-feira, 23 de julho, o webinar de lançamento da 96ª edição da Revista Saneas, tendo como convidada Flávia Porto, diretora de Gente e Cultura, palestrante e conselheira de empresas. O evento integra as comemorações dos 40 anos da AESabesp, organização que atua em defesa do saneamento, do meio ambiente, da saúde e da qualidade de vida das pessoas e do planeta.
Com o tema “O Novo Profissional do Saneamento”, a nova edição da Saneas reúne análises sobre os desafios e as competências exigidas diante das transformações do mercado. A publicação integra a plataforma de mídias da AESabesp, e Flávia Porto é uma das especialistas que analisam o cenário profissional na edição 96 da revista.

O encontro virtual, transmitido pelo canal da associação no YouTube, marcou a apresentação oficial do novo número da publicação técnica e institucional da entidade, disponível para leitura neste link.
A abertura e a mediação do encontro foram conduzidas por Débora Torres, coordenadora do Conselho Editorial da AESabesp, e Kléber dos Santos, diretor de Comunicação e Marketing da AESabesp. Em sua fala inicial, Débora ressaltou o compromisso da revista em acompanhar as transformações do setor e servir como espaço de reflexão estratégica.
“A 96ª edição da Revista Saneas traz reflexões essenciais para o momento de transição e modernização que vivemos no saneamento. Nosso objetivo com este lançamento é promover um debate qualificado sobre como as organizações estão se preparando para o futuro, mantendo o compromisso de entregar conteúdo técnico e estratégico de alto nível”, afirmou a coordenadora, antes de apresentar a convidada Flávia Porto.
Dando início à sua apresentação, Flávia Porto destacou que o setor de saneamento é altamente regulamentado e requer segurança, estabilidade, previsibilidade e extrema confiabilidade, por impactar diretamente a saúde pública. Contudo, as rápidas mudanças climáticas e as alterações no consumo de recursos naturais exigem inovação contínua. “O grande desafio do profissional do setor é saber equilibrar a garantia da segurança técnica com a disposição para inovar e assumir riscos calculados”, salientou.
Com marcos de mudança ocorrendo de forma avassaladora e contínua, e com o próprio conceito de mudança tendo se tornado uma commodity, Flávia ressaltou que as competências técnicas puras já não são suficientes. “O profissional precisa desenvolver flexibilidade cognitiva para lidar com incertezas, ambiguidades e tomadas de decisão sem ter todas as respostas prévias ou tangíveis no momento”, observou.

A especialista ressaltou também a digitalização como mudança de mentalidade e de processos. “A digitalização acelerada, intensificada no pós-pandemia, não se restringe ao uso de ferramentas ou computadores. No contexto organizacional do saneamento, ela diz respeito à reorganização da forma de pensar, à simplificação de processos, à agilidade do trabalho e ao foco na experiência de quem utiliza os serviços”, pontuou.
Por lidar diariamente com complexidades ambientais e com a prestação de serviços essenciais, o setor de saneamento depende fundamentalmente do elemento humano. Flávia contextualizou esse cenário ao alertar para o quadro preocupante de saúde mental no Brasil, considerado líder em transtornos de ansiedade e casos de burnout. “Nesse ambiente desafiador, a inteligência e a sustentabilidade emocional tornam-se competências indispensáveis”, observou.
De acordo com ela, no ambiente de trabalho do saneamento, a liderança precisa atuar com autorregulação e autoconhecimento. “Uma liderança mentalmente esgotada ou desequilibrada tem o potencial de desencadear o adoecimento de equipes inteiras. Por isso, liderar transformações no setor exige coragem, preparo emocional e intenção ativa no cuidado com as pessoas”, avaliou.
Na condução do webinar, Débora Torres solicitou à especialista uma análise sobre como o mercado de trabalho mudou, na prática, após a covid-19 e quais foram os impactos reais na vida dos trabalhadores. Flávia comentou que a pandemia e o isolamento não afetaram apenas a saúde mental individual, mas provocaram um recuo nas habilidades relacionais no espaço público. Também aceleraram a digitalização, alterando o formato ideal de desenvolvimento profissional. “A sala de aula convencional já não supre as necessidades imediatas, pois as tecnologias e ferramentas digitais mudam em velocidade superior ao tempo de formação”, disse.
Entre seus apontamentos, Flávia destacou que o diferencial competitivo do profissional está na forma como ele lida e se apropria de situações de desconforto, mantendo o controle emocional. “É essencial ter a habilidade de se adaptar rapidamente ou transformar o ambiente de acordo com a exigência do momento. Nesse aspecto, o letramento emocional e o autoconhecimento são imprescindíveis. Em setores de alta responsabilidade pública, como o saneamento, a gestão emocional torna-se um atributo de desempenho técnico”, frisou, complementando que a saúde no trabalho precisa ser enxergada de forma sistêmica, integrando os aspectos físico, emocional e social.
Em sua participação no webinar, Kléber dos Santos destacou a importância de compreender como construir e gerir uma carreira no cenário atual, considerando que as “fórmulas antigas” de desenvolvimento profissional deixaram de existir. Segundo ele, é fundamental que os profissionais, especialmente os do setor de saneamento, descubram quais são os novos requisitos e competências que precisam desenvolver para continuarem relevantes e progredirem no mercado.
Em resposta, Flávia enfatizou que não existe mais “receita de bolo” ou fórmula garantida para o sucesso profissional, destacando uma mudança radical de paradigma na forma de encarar a carreira. “A técnica virou commodity. Diplomas e cursos funcionais, como informática ou idiomas, deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos básicos. A competência técnica se aprende fazendo, no dia a dia adulto. Grandes empresas hoje selecionam estagiários e trainees priorizando a inteligência emocional e a capacidade relacional, e não apenas a bagagem técnica. Portanto, o primeiro passo para o sucesso na carreira não é escolher um curso, mas ter clareza do estilo de vida que se deseja ter. Focar apenas na profissão desde a infância faz com que as pessoas façam escolhas cegas e se sintam infelizes depois”, observou.
Para ela, a decisão correta começa pela definição do ambiente, do convívio e da vida que se deseja levar, para então encaixar o trabalho nesse projeto. “Pelo que acompanho, os grandes saltos de carreira acontecem quando o profissional coloca suas competências à disposição das pessoas certas, tornando seus talentos conhecidos por pessoas-chave. E timidez não é desculpa. A habilidade de se relacionar e criar vínculos no trabalho é um comportamento treinável e desenvolvível, não um traço de personalidade imutável. Para não ficar à mercê do acaso, o profissional deve encarar a própria trajetória de forma intencional, ou seja, entender suas fortalezas, reconhecer o que faz bem e identificar seus gaps, atuando sobre o que precisa melhorar com um plano de desenvolvimento individual, prazos e indicadores mensuráveis. Também deve buscar mentorias, cursos específicos ou novos projetos práticos para suprir o que falta. Em suma, é preciso estar pronto quando a oportunidade surgir”, orientou.
No último bloco do webinar foi abordada sobre a importância da maturidade da agenda ESG no cenário corporativo e quais são as estratégias direcionadas ao setor de saneamento. Segundo Flávia, após um momento de aceleração desproporcional na agenda mundial de ESG no pós-pandemia, hoje observamos um movimento de polarização no mercado. Conforme ela, com o surgimento de novos conflitos geopolíticos e pressões econômicas, as prioridades das empresas começaram a se dissolver. “De um lado, as organizações que já tinham o cuidado socioambiental e a boa governança genuinamente conectados à sua estratégia avançaram de forma muito sólida. Por outro lado, aquelas que adotavam a pauta de forma superficial ou apenas por exigência de auditorias, o chamado greenwashing, retrocederam e desinvestiram massivamente, com casos de cortes orçamentários que chegaram a 60% de um ano para o outro. Afinal, quando uma empresa reduz o orçamento de uma área, ela está declarando que aquilo passou a ter menos valor”, alertou Flávia.
Apesar dessa oscilação nos investimentos corporativos, na visão de Flávia Porto, o ganho mais expressivo acumulado nos últimos anos foi o aprofundamento do letramento da sociedade civil em relação às pautas socioambientais. “A pandemia trouxe a urgência do cuidado sanitário e da higiene básica; os debates sobre diversidade e inclusão ganharam espaço inédito no pilar Social; e a rápida digitalização exigiu uma governança muito mais forte e estruturada. Esse conhecimento adquirido não se perde, mas o grande desafio das organizações hoje continua sendo a falta de uma atitude genuína de renunciar ao lucro de curto prazo para garantir a perenidade do negócio e do planeta no longo prazo”, ressaltou.
Nesse cenário, a conta das mudanças climáticas não fecha e chega cada vez mais cedo. Para Flávia, as ações de ESG exigem visão de futuro e, em momentos de incerteza, muitas empresas ficam inseguras e priorizam o resultado imediato. No entanto, a educação e a conscientização geradas nos últimos anos deixam a sociedade e o mercado muito mais preparados para os próximos cenários de crise.
“Para setores estratégicos como o de saneamento, que lidam diretamente com a saúde pública, o meio ambiente e o bem-estar da população, compreender e sustentar o compromisso com a perenidade e com a responsabilidade socioambiental é o único caminho viável para garantir o futuro”, declarou a especialista, entre outras considerações importantes para os profissionais do setor de saneamento.
Para assistir ao webinar na íntegra, acesse este link.






