Percorrendo territórios distintos, a exposição Água, do fotógrafo documentarista Érico Hiller, retrata a relação humana com esse recurso vital diante de diferenças culturais, geográficas e históricas. Dividida entre uma série colorida, com imagens feitas em diversos países, e uma série em preto e branco, dedicada ao cenário brasileiro, a mostra une narrativa poética e crítica ao propor uma reflexão sobre a urgência da crise hídrica global e a preservação da água.
Oriunda do livro homônimo, a exposição em cartaz no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) apresenta, além das fotografias, um filme de bastidores do processo criativo, que mergulha nas vivências do autor ao longo dos anos de realização do projeto.
O interesse de Érico Hiller pela arte e pela fotografia surgiu ainda na infância e se consolidou durante a graduação em Comunicação Social, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), etapa em que construiu a identidade que o tornaria conhecido como um “fotógrafo andarilho”. Natural de Belo Horizonte (MG), Érico adotou São Paulo como residência, onde mantém um escritório de produção de projetos. Desde então, dedica seu olhar à fotografia documental. Clique aqui e saiba mais sobre o fotógrafo e suas obras no site da editora Vento Leste.
A série fotográfica Água, de Érico Hiller, está em exposição no MIS até 5 de abril. A visitação acontece de terça a domingo, com ingressos disponíveis no site da instituição. Às terças-feiras, a entrada é gratuita, com retirada de ingressos na bilheteria do MIS. Saiba mais: mis-sp.org.br/exposicao/agua-de-erico-hiller
Enquanto se deslocava entre a Amazônia e seu próximo destino, o fotógrafo compartilhou parte de seu processo criativo e de suas motivações ao explorar o tema.



Confira a entrevista completa com Érico Hiller:
Saneas Online: Pode compartilhar um pouco dos bastidores do processo de produção das fotografias e qual foi o estopim por trás desse projeto?
Érico Hiller – Um projeto documental dessa envergadura precisa ser pensado cautelosamente. Um tema global e de difícil acesso como esse requer uma empreitada logística bastante complexa, e foi exatamente isso que me propus a fazer.
Fiquei dois anos em campo, viajando praticamente de forma ininterrupta, para realizar a primeira parte do projeto, de 2018 a 2020. O estopim foi a maneira como esse tema chegou até mim. Meu principal tema de trabalho é a desigualdade social, e alguns eixos desse problema foram se destacando; um deles foi a água, a falta de saneamento básico e como isso impacta as pessoas, fazendo com que percam seu senso de pertencimento ao mundo.
Quando você não tem água, é como se estivesse em um universo paralelo, mais exposto a doenças e riscos. O tema já vinha despertando minha atenção desde 2008, mas foi apenas em 2018 que consegui levantar financiamento para me dedicar a esse projeto. Comecei a fotografar e só parei em 2020, por causa da pandemia. Nesse período, lancei o primeiro livro do projeto, Água, que é o alicerce da exposição.
Anos depois, criei um cenário em que pude fazer um aprofundamento totalmente brasileiro para encerrar esse tema. Dessa vez, passei a fazer fotografias em preto e branco apenas sobre o Brasil, com um enfoque muito grande nas mudanças climáticas, nas grandes enchentes e na seca na Amazônia. Isso resultou em um segundo livro.
Cada um desses movimentos resultou em uma publicação, e essa exposição que vemos no MIS é a primeira vez que junto esses dois trabalhos. É o Água com o Água Brasil, resultando em uma grande exposição em que faço um arco que percorre cerca de dez anos de pesquisa e trabalho de campo, culminando nesta mostra.
Saneas Online – Quais reflexões a exposição busca provocar no público ao tratar de um tema tão relevante como a escassez hídrica, especialmente diante do cenário climático atual?
Érico Hiller – Acho que o público naturalmente se sensibiliza diante dessas imagens. É um trabalho com muita verdade. As pessoas só se informam e começam a agir quando são tocadas, e esse é o papel que tento cumprir por meio da fotografia. Não sou uma organização; meu impacto social é pequeno, mas o impacto educacional e na consciência das pessoas pode acontecer. Acredito que a fotografia ainda é um canal que proporciona clareza mental e social, e minha intenção é essa.
Ao final da exposição, apresentamos sugestões de organizações e ONGs com as quais as pessoas podem se envolver como doadoras, voluntárias ou comunicadoras desses trabalhos.
Tenho recebido muitos retornos por meio das redes sociais, com pessoas escrevendo emocionadas e comovidas. Em um museu tão pertinente, em uma cidade culturalmente ativa e grande como São Paulo, ter um trabalho desses exposto justamente no período de férias e atravessando o Dia Mundial da Água acredito que cumpre as finalidades que almejo.



Saneas Online – Pensando nos diferentes contextos retratados nas fotografias, qual é o fio condutor da mostra e por que, mesmo com tantos avanços tecnológicos, a falta de água limpa ainda é uma realidade no Brasil e no mundo?
Érico Hiller – A falta de água no Brasil e no mundo acontece por diversas razões, tanto de governança quanto ambientais. Historicamente, essa falta de prioridade nas estruturas que proporcionam água limpa e esgotamento sanitário também se relaciona com fatores climáticos, porque, se até hoje muitas pessoas no Brasil e no mundo precisam buscar água para realizar as atividades mais elementares da rotina, o que dizer quando o clima impõe uma pressão ainda maior sobre esse cenário?
É claro que não estamos falando de um cenário apocalíptico e sem volta. Não é nada disso. Acho que, se por um lado o clima oferece um fator de estresse adicional, por outro lado vi muitas comunidades em diferentes regiões do planeta, seja na Índia, na África ou mesmo aqui na América Latina, em que a água deixou, nos últimos 10 ou 15 anos, de ser um estresse constante. Os grandes bolsões de sede e fome do mundo já não estão tão isolados como costumavam estar.
É claro que sigo vendo água sendo carregada no lombo de animais e pela tração humana. Isso ainda existe e eu presenciei com meus próprios olhos. Mas acredito que tecnologias de captação, cada vez mais aprimoradas, têm se tornado mais viáveis.
Saneas Online – Além do apoio institucional do MIS, a exposição conta com o patrocínio de empresas do setor de tratamento de água e parcerias com organizações ambientais. Por que é tão importante que essas entidades estejam engajadas em ações de conscientização socioambiental?
Érico Hiller – Eu me considero um fotógrafo ativista e humanista, que traz esses temas para o conhecimento de uma audiência mais ampla. No mundo em que vivemos hoje, a fotografia pode ser vista como cultura ou como arte; no meu caso, ela é uma forma de expressão humana e social. Vejo minha fotografia mais como um panfleto social do que como uma obra de arte.
O MIS participa desse mosaico como uma casa de cultura, ao trazer uma exposição extremamente bem montada e rigorosamente construída, mostrando um trabalho como ele deve ser apresentado. Tenho respeito e gratidão por isso, mas alguém precisa viabilizar financeiramente esse processo.
Tive o apoio de duas empresas específicas para realizar essa exposição: a GS Inima e a ComBio, que me apoiaram financeiramente e tornaram possível a construção de uma mostra tão bem executada. Foi desafiador, mas agradeço, reconheço e aplaudo a iniciativa dessas duas organizações.
Gostaria que houvesse mais sensibilização por parte de um número maior de empresários e empresárias atentos à fotografia como ferramenta de amplificação das nossas vozes por justiça social e ambiental. Não é fácil explicar isso.


Próximo projeto
Meu próximo projeto será sobre a violência contra as mulheres, com foco nos feminicídios. É um tema que diz respeito a todos e todas, pois trata de igualdade de gênero e da morte de seres humanos do gênero feminino. Esse será meu próximo grande desafio.






