Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 28 – Contribuição da indústria para a segurança hídrica une competitividade, simbiose e resiliência na gestão de bacias

Alexandre Vilella - FIESP

Alexandre Vilella, especialista em meio ambiente da Fiesp e mestre em engenharia urbana, analisa como a indústria avança no reúso, na adaptação climática extramuros e na parceria estratégica com o saneamento

A sustentabilidade das grandes regiões metropolitanas e dos polos fabris depende diretamente da harmonia entre a segurança hídrica, a conservação das bacias hidrográficas e a previsibilidade regulatória. A superação de crises climáticas cada vez mais frequentes, a expansão do reúso de efluentes, a mitigação da poluição difusa, as estratégias de adaptação e a transição para a economia circular estão entre as prioridades quanto à resiliência hídrica e que definirão o futuro socioeconômico e a atratividade de investimentos no Brasil.

Nesta entrevista especial da Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação, Alexandre Vilella, graduado em Engenharia Ambiental pela EEP/Fumep e mestre em Engenharia Urbana pela UFSCar, compartilha sua visão sobre o papel indutor do setor produtivo na gestão dos recursos hídricos e na resiliência das cidades.

Com mais de 25 anos de atuação nos setores público, privado e terceiro setor, incluindo a gerência técnica do Consórcio PCJ e a coordenação da Câmara Técnica de Monitoramento Hidrológico do Sistema Cantareira, Vilella atua desde 2014 como Especialista Regional de Meio Ambiente no Departamento de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), representando a indústria no Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) e em comitês de bacias estaduais e federais. Docente universitário em cursos de graduação e pós-graduação, ele aborda nesta entrevista a necessária superação da dicotomia de crise na gestão da água, as barreiras do reúso externo, a expansão de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) nas bacias e o impacto do Marco Legal do Saneamento tanto na demanda por bens de capital quanto na preservação dos mananciais, além de destacar a relevância da AESabesp em suas quatro décadas de liderança técnica no saneamento brasileiro. Confira!

Saneas Online – Com a sua vivência técnica em Comitê de Bacias Hidrográficas, Conselhos e Fóruns nos âmbitos estadual, nacional e internacional, poderia destacar como equilibrar, na prática, a prioridade legal do abastecimento público com a segurança hídrica necessária para a continuidade das atividades produtivas industriais em cenários de escassez?

Alexandre Vilella: Para o setor industrial, segurança hídrica vai além da garantia de vazão em quantidade e qualidade adequadas: envolve segurança regulatória, previsibilidade operacional e ampla transparência de dados. Em um cenário de mudanças climáticas e necessidade contínua de adaptação, o primeiro passo é superar a visão binária de gestão, a dicotomia entre normalidade e crise absoluta. Um semáforo não passa diretamente do verde para o vermelho sem transitar pelo amarelo. Quando ocorrem volumes atípicos de precipitação, pode levar a uma falsa impressão de resolução definitiva e a sociedade se desmobilizar. Precisamos adotar mecanismos de resposta em camadas, com regras graduais de contingência que orientem os usuários à medida que as condições melhoram ou se deterioram.

Quanto à prioridade legal do consumo humano e da dessedentação de animais, trata-se de um preceito legal indiscutível. As experiências já vivenciadas demonstraram o grande desafio na operacionalização pelas operadoras de saneamento, sobretudo no tecido urbano contemporâneo, onde convivem, no mesmo perímetro de rede, residências, escolas, hospitais e unidades produtivas. Os aprendizados da pandemia consolidaram a relevância das atividades essenciais. Cabe refletir se faz sentido impor restrições severas a uma planta que produz insumos químicos indispensáveis à potabilização da água para compensar índices de perdas uma determinada realidade que pode alcançar 60%. Cadeias produtoras de alimentos, fármacos, combustíveis e diversas outras exigem essa mesma análise integrada de criticidade.

A regulação deve valorizar e reconhecer as boas práticas, incentivando quem investiu em eficiência e recirculação, seja em períodos classificados como normalidade ou em momentos de criticidade aguda. Em diversas bacias paulistas sob severo estresse hídrico, a indústria desenvolveu os mais rigorosos benchmarks internacionais de consumo de água por tonelada produzida. Esse esforço é importante que seja ainda mais incentivado nos momentos de restrição. A segurança hídrica sustentável exige governança que premie a eficiência, assegure a continuidade dos serviços essenciais e ofereça estabilidade para todos os setores usuários de água.

Saneas Online – A indústria paulista tornou-se referência em eficiência no uso da água, reduzindo captação e investindo em recirculação e reúso industrial. Sob a ótica da Regional de Meio Ambiente na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), quais barreiras regulatórias ou incentivos econômicos ainda faltam para que o reúso de efluentes tratados (inclusive oriundos do saneamento público) ganhe escala comercial mais robusta no estado?

Alexandre Vilella: É preciso distinguir dois modelos. O reúso interno, ou intraplanta, já está plenamente consolidado no cotidiano fabril, independentemente do porte da empresa, por meio de circuitos fechados e reaproveitamento contínuo de águas de processo. O verdadeiro desafio reside no reúso externo: o fornecimento de efluentes tratados por operadoras públicas ou privadas de saneamento para fins industriais, ambientais, urbanos ou agrícolas. Apesar de marcos recentes, como a regulamentação do CNRH e Conama, a expansão dessa modalidade ainda tem grandes desafios. O caso do Aquapolo, em São Paulo, permanece como uma referência isolada de porte significativo, com algumas outras poucas iniciativas similares surgindo em outros estados.

Para destravar essa escala, é fundamental superar a insegurança jurídica e regulatória. Muitas vezes, as normas propõem padrões engessados de qualidade. Para a indústria, os parâmetros qualitativos, embora sob a tutela do órgão regulador, devem ser pactuados entre o produtor e o usuário final, respeitando as exigências técnicas e operacionais de cada arranjo produtivo.

Outro entrave fundamental a ser aprofundado é a questão tributária. O arcabouço fiscal brasileiro precisa evoluir para gerar o incentivo necessário às práticas de economia circular. Tratar efluentes ou resíduos como novas bases de incidência tributária, quando toda a cadeia original já foi tributada, gera distorções e desincentiva investimentos de capital intensivo. O reúso externo é instrumento-chave para a resiliência hídrica e a adaptação climática. No entanto, sua viabilização exige marcos de incentivo econômico e flexibilidade, em vez de compulsoriedade, assegurando que os projetos tenham viabilidade técnica e financeira comprovada.

Saneas Online – Além da água, o setor industrial paulista atua fortemente na agenda da gestão de resíduos e descarbonização. De que maneira a simbiose industrial e a economia circular entre plantas industriais e operadoras de saneamento (como valorização de lodos de ETE e biometano) podem alavancar novos modelos de negócios sustentáveis?

Alexandre Vilella: A simbiose industrial reflete a lógica de cooperar estrategicamente: cada elo oferece o que tem de melhor para fortalecer o conjunto. Em 2025, numa parceria entre o Fundo Finlandês de Inovação Sitra, a Fiesp, Senai-SP, Senai Nacional e a CNI, pela primeira vez na América Latina, foi realizado o Fórum Mundial de Economia Circular (WCEF), evento catalisador para integrar cadeias produtivas e políticas públicas. Na ocasião, houve o lançamento de um Ebook técnico com diretrizes e casos concretos de reaproveitamento de matérias-primas e simbiose aplicada, incluindo interfaces com o saneamento. O material pode ser acessado por meio deste link.

A viabilização desses arranjos enfrenta desafios logísticos, acentuados pelas dimensões territoriais. Em distritos industriais consolidados, a troca de subprodutos é direta e fluida, mas a dispersão geográfica ainda exige soluções estruturadas. No campo da descarbonização, por exemplo, a produção de biometano ganha tração relevante como alternativa energética de baixo carbono, demandando agora escala comercial e infraestrutura de distribuição.

Há também o desafio pelo avanço do saneamento: à medida que a universalização da coleta e do tratamento avança no Brasil, país com cerca de 4 mil estações de tratamento de esgoto em operação, eleva-se proporcionalmente o volume gerado de lodos de ETEs e de ETAs. É preciso desenvolver soluções e esses resíduos podem ter potencial para serem geridos sob a lógica da circularidade, como por exemplo, no aproveitamento energético ou na agricultura.

Saneas Online – Historicamente, a gestão hídrica fabril focava no que ocorria “dentro da cerca” (eficiência de processos). Hoje vemos grandes plantas investindo em restauração de bacias, Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e conservação de nascentes. Como o senhor enxerga essa atuação da indústria “fora da cerca” para assegurar a perenidade dos mananciais compartilhados?

Alexandre Vilella: Ninguém sai igual após uma crise severa. A crise hídrica de 2014 no Sudeste, somada às enchentes recentes no Sul e às secas históricas na Região Norte, vem ajudando a transformar a percepção de risco. A indústria leva em consideração que não basta assegurar a eficiência hídrica dentro dos limites de sua fábrica se a cadeia de valor estiver vulnerável. Não adianta manter uma planta operando se o fornecedor de insumos paralisar por escassez ou inundação, ou se o consumidor final não dispuser de água na torneira para utilizar os produtos em casa.

Embora a agenda de mitigação de emissões seja relevante, no Brasil o foco também deve ser a adaptação climática. O modelo ensinado por agências internacionais de enfrentamento a desastres, como a JICA no Japão, mostra que eventos extremos não podem ser simplesmente evitados; é preciso aprender a conviver com eles mitigando impactos. As realidades têm levado o setor produtivo a mapear riscos em escala de bacia hidrográfica, compreendendo que a infraestrutura cinza tradicional de engenharia precisa ser complementada pela infraestrutura verde.

Grandes corporações têm liderado essa transição, tracionando fornecedores e comunidades do entorno. Observamos um avanço expressivo de projetos apoiados pela indústria com foco em Soluções baseadas na Natureza e Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). São iniciativas voltadas à proteção de nascentes, restauração florestal de matas ciliares, áreas de infiltração para recarga de aquíferos e drenagem sustentável a montante dos pontos de captação. Essas práticas têm o olhar de que investir na preservação do manancial que abastece as operações, colaboradores e os municípios vizinhos é salvaguardar a própria continuidade do negócio. Essa gestão compartilhada e extramuros deixou de ser acessória e consolidou-se como estratégia prioritária de resiliência.

Saneas Online – Poderia citar algumas organizações que mais se destacam nessa atuação?

Alexandre Vilella: Prefiro abordar pelo viés setorial, pois essa é uma prática que mobiliza cadeias inteiras. O grande destaque recai sobre os setores hidrointensivos, nos quais a água é o cerne do negócio e insumo indispensável para a viabilidade operacional.

Os segmentos de alimentos e bebidas, por exemplo, têm liderado inúmeras iniciativas voltadas ao Pagamento por Serviços Ambientais, ao diagnóstico detalhado de bacias hidrográficas e à recuperação florestal de áreas de recarga hídrica. Observamos movimento semelhante e muito consistente nos ramos de cosméticos, higiene pessoal e produtos de limpeza, que dependem diretamente da regularidade e da qualidade da água para suas formulações e processos industriais.

O setor de energia e refino também estruturou programas robustos de gestão extramuros. De maneira geral, são indústrias que estabeleceram parcerias estratégicas com o poder público, concessionárias de saneamento e organizações do terceiro setor para proteger mananciais, garantir a segurança hídrica das regiões onde estão instaladas e dar sustentabilidade de longo prazo a toda a cadeia de valor.

Saneas Online – Esse olhar para a cadeia de valor é fundamental?

Alexandre Vilella: É a grande fronteira e também um grande desafio. Quando tratamos de cadeia de valor, a questão central é como engajar a média e a pequena empresa, muitas vezes fornecedora da grande indústria, em diretrizes que parecem distantes de seu cotidiano. As grandes corporações exercem um papel indutor decisivo, puxando padrões de sustentabilidade na logística e no fornecimento. Além disso, a vulnerabilidade do consumidor final afeta diretamente o mercado: sem acesso à água tratada e ao saneamento básico, a população sequer consegue utilizar determinados produtos. A universalização, portanto, transcende a saúde pública e atua como vetor essencial de dinamização econômica.

Saneas Online – Na agenda ESG corporativa, a métrica da pegada hídrica e a vulnerabilidade à escassez tornaram-se condicionantes de crédito e atração de investimentos. As indústrias paulistas já incorporaram o risco hídrico nos seus relatórios de governança e decisões de expansão territorial?

Alexandre Vilella: O risco climático e a segurança hídrica ocupam hoje posição central nas mesas de tomada de decisões. Esses indicadores são integrados ao planejamento estratégico e aos relatórios de sustentabilidade. O desafio analítico reside em calibrar a governança: gerenciar as incertezas, evitar o pessimismo paralisante de cenários excessivamente catastróficos, sem incorrer em significativa restrição diante de eventos climáticos extremos que já impactam a sociedade.

O desafio permanece na inclusão das cadeias de pequenas e médias indústrias nas agendas globais. Pesquisas conduzidas pela FIESP e pela CNI demonstram que essas empresas frequentemente têm desafios quanto à incorporação de metas globais de descarbonização e das métricas complexas de ESG. 

Embora o cardápio de adaptação contemple tecnologias avançadas, de inteligência artificial na automação de processos a intervenções emergenciais, a resposta mais estruturante e sustentável é elementar: universalizar a coleta e o tratamento de efluentes e combater com rigor as perdas nas redes de distribuição. Proteger a água disponível e garantir sua máxima eficiência são grandes pilares da segurança jurídica e da atratividade de investimentos.

Saneas Online – Na sua atuação como engenheiro urbano e ambiental, como o senhor avalia o avanço do Marco Legal do Saneamento sob a perspectiva do setor industrial? A entrada de novos investimentos e modelos contratuais têm impactado a qualidade dos corpos hídricos que servem de manancial para os parques fabris?

Alexandre Vilella: Essa análise precisa ser compreendida sob duas perspectivas complementares. A primeira é a da indústria como usuária direta dos recursos hídricos, seja captando águas subterrâneas e superficiais, seja utilizando o sistema público de abastecimento. Nesse papel, o setor fabril está exposto às oscilações de escassez e excesso hídrico assim como a sociedade, com níveis de vulnerabilidade proporcionais à resiliência de cada processo produtivo.

Sob essa ótica, o Marco Legal do Saneamento gera uma expectativa legítima quanto à recuperação qualitativa das bacias hidrográficas. Observamos avanços importantes e desafios adicionais, como o gerenciamento da poluição difusa.

O controle inicial foca na poluição pontual, centrada no tratamento de efluentes sanitários urbanos. Contudo, a experiência internacional demonstra que, superada a fase das cargas pontuais, a qualidade dos corpos hídricos pode atingir um platô de estagnação caso a poluição difusa não seja mitigada. Essa gestão integrada é fundamental para que a sociedade perceba a eficácia dos investimentos em saneamento e para que os risos, na realidade, demonstrem tais avanços. A universalização precisa, portanto, incorporar o enfrentamento desse vetor para garantir a integridade dos mananciais para todos os setores usuários.

A segunda perspectiva é a da indústria como desenvolvedora e fornecedora de soluções. A aceleração dos investimentos e os novos arranjos contratuais do saneamento têm enorme potencial para expansão da demanda por bens de capital e inovação manufaturada no país. Esse ecossistema abrange desde materiais tradicionais da infraestrutura básica, como tubulações, bombas hidráulicas, válvulas e veículos operacionais, até tecnologias de alta densidade, incluindo automação de redes, sensores para combate a perdas físicas, inteligência artificial na gestão preditiva de dados e sistemas avançados de ultrafiltração para reúso.

A universalização representa, assim, um duplo dividendo para o setor: potencial de preservar os mananciais que sustentam a continuidade das operações produtivas e fortalecimento do mercado para o fornecimento de engenharia e tecnologia.

Saneas Online – Realmente, é um mercado bastante robusto.

Alexandre Vilella: Sem dúvida. O grande mérito do Marco Legal do Saneamento, no que tange à indústria fornecedora, é buscar assegurar a perenidade dos investimentos. Historicamente, o setor conviveu com oscilações dependentes de ciclos orçamentários: períodos de aportes expressivos seguidos de fases de retração. Essa instabilidade inviabilizava planos de negócios de longo prazo, já que a previsibilidade da indústria precisa de horizontes estáveis para modernizar maquinários, captar financiamentos e ampliar linhas de produção.

Ao estabelecer metas firmes e regras transparentes de universalização, o marco coloca o tema no centro das políticas estruturantes, gerando previsibilidade para a cadeia de valor. Essa estabilidade traciona o PIB, impulsiona a geração de empregos e o desenvolvimento socioeconômico contínuo.

Saneas Online – E os investimentos não podem cessar quando o país alcançar as metas de universalização.

Alexandre Vilella: Exatamente. A universalização não é uma linha de chegada definitiva após a qual o setor possa desmobilizar esforços; ela se assemelha ao próprio conceito de sustentabilidade, que exige aprimoramento contínuo.

Mesmo quando os índices formais de atendimento forem atingidos nos prazos legais, a dinâmica do crescimento urbano continuará demandando expansão, renovação de ativos e manutenção constante das redes. Além disso, surgirão novas prioridades, como o controle da poluição difusa, a drenagem urbana sustentável, a gestão avançada de lodos e a adaptação climática contra secas e inundações. A infraestrutura exige perenidade técnica e operacional para sustentar os ganhos ao longo do tempo.

Saneas Online – Como docente universitário e instrutor técnico, qual é a importância de formar uma nova geração de engenheiros com visão sistêmica de bacia hidrográfica, capazes de dialogar simultaneamente com a linguagem da indústria, a regulação pública e o terceiro setor?

Alexandre Vilella: Assumindo a perspectiva acadêmica, o primeiro grande obstáculo é fortalecer a atratividade do ensino superior e demonstrar às novas gerações que a engenharia permanece indispensável para o desenvolvimento do país. Os indicadores nacionais revelam uma retração acentuada no número de formandos nessa área, o que impõe a urgência de reaproximar os jovens dessa carreira, articulando inovação técnica e capital humano. Vivemos em um contexto dinâmico no qual a competência fundamental não é apenas assimilar teorias consolidadas, mas desenvolver a capacidade contínua de aprender, desaprender e reaprender.

Essa flexibilidade reflete a própria evolução da nossa percepção territorial. Historicamente, prevaleceu uma visão estritamente municipalista: olhava-se para a própria residência, depois para o quarteirão e, finalmente, para os limites administrativos da cidade. Contudo, os vetores de segurança hídrica e saneamento evidenciaram que nenhum município é autossuficiente e que todos dependem diretamente das ações executadas a montante. O marco regulatório paulista de 1991 e a Lei das Águas de 1997 consolidaram a bacia hidrográfica como unidade territorial de gestão. Nas salas de aula de engenharia civil e ambiental, esse conceito é estruturante para demonstrar que a eficiência a montante no tratamento de efluentes em uma cabeceira pode onerar o tratamento de água e a tarifa na foz do rio.

Paralelamente à infraestrutura física, a gestão contemporânea exige governança multistakeholder. Os comitês de bacia representam fóruns deliberativos onde o interesse individual precisa convergir para decisões coletivas. Formar engenheiros aptos a transitar entre a regulação pública, o terceiro setor e a iniciativa privada é vital, sobretudo porque a ausência de representação técnica qualificada nesses colegiados transfere decisões estratégicas a terceiros.

Há também o desafio geracional de retenção de talentos. Diferenciais tradicionais, como estabilidade funcional no setor público, podem já não exercer a mesma atração sobre os recém-formados, exigindo que empresas e órgãos governamentais ofereçam propósito e ambientes de trabalho colaborativos. No meio acadêmico, convivemos hoje com uma pluralidade de gerações no mercado de trabalho com visões de mundo distintas, o que demanda metodologias ativas de ensino e renovação constante da didática. A capacitação em saneamento precisa honrar seus fundamentos técnicos históricos, mas com a clareza de que cada novo ciclo impõe desafios operacionais inéditos.

Saneas Online – Para encerrar, celebrando as quatro décadas da AESabesp: qual mensagem o senhor deixa sobre a importância da aproximação contínua entre a engenharia sanitária e a engenharia industrial para construir uma agenda de segurança hídrica e desenvolvimento sustentável para o Brasil?

Alexandre Vilella: Deixo uma mensagem de otimismo. A dimensão dos nossos desafios hídricos é proporcional às oportunidades que se abrem para o setor de saneamento, a indústria, a academia e a geração de empregos qualificados. Em um cenário dinâmico no qual as respostas técnicas precisam ser continuamente aprimoradas, a capacidade de agir em cooperação estratégica é indispensável para preservar investimentos, atrair novos capitais e consolidar a resiliência frente às mudanças climáticas.

Embora o setor de saneamento dialogue prioritariamente com o ODS 6 (Água Potável e Saneamento), faço questão de ressaltar o ODS 17, que trata de Parcerias e Meios de Implementação. Nenhuma solução técnica se sustenta de forma isolada: o que beneficia o setor produtivo precisa gerar valor para a sociedade, e vice-versa. É por meio de arranjos colaborativos que viabilizamos modelos econômicos de simbiose e asseguramos não apenas a implantação das infraestruturas, mas a sua sustentabilidade no longo prazo. Tão desafiador quanto alcançar o topo é manter-se nele com excelência contínua.

Ao completar 40 anos de trajetória marcados pela liderança técnica, a AESabesp compartilha com a sociedade essa missão estruturante. O estado de São Paulo ostenta indicadores de atendimento superiores à média nacional, mas ainda enfrenta etapas decisivas: refinar o tratamento de efluentes, controlar a poluição difusa e viabilizar o reenquadramento de corpos d’água hoje degradados. A integração entre a engenharia sanitária e a engenharia industrial é a chave para transformar rios sob estresse hídrico em mananciais seguros e perenes para toda a sociedade.

*40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro
A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.