Ciência, tecnologia e saúde

Centenas de livros e filmes épicos retrataram a era das descobertas de novos continentes pelos países europeus em especial Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra. Descreveram as guerras pelo domínio das terras ultramarinas e que, após a derrota da França napoleônica, sobressaiu a British Empire como o maior império do mundo, dominando mais de 450 milhões de pessoas em quase 25% da área total do planeta terra, no auge do poder se dizia que “o sol nunca se põe no Império Britânico”, devido a sua extensão ao redor do mundo garantir que o sol sempre estivesse brilhando em pelo menos um de seus territórios.

Londres, a capital deste Império, foi o epicentro da primeira Revolução Industrial que provocou intensa migração de moradores da zona rural e de irlandeses tornando-se a cidade mais populosa do mundo com mais de 7 milhões de habitantes morando em bairros (distritos) superpovoados muito insalubres e trabalhadores aglomerando com sua família em moradias de precárias condições de higiene, reinando altas taxas de mortalidade, principalmente a infantil.

Neste turbilhão social do fim dos artesões, substituídos pelas máquinas das manufaturas, imortalizado pelo filme Tempos Modernos, do genial Chaplin, se instala na grande cidade e inicia sua caminhada para a medicina o jovem John Snow em outubro de 1.836 e em outubro de 1.838 é devidamente habilitado para exercê-la. Tendo o espírito inovador, o Dr. Snow desenvolveu a tecnologia para respiração artificial para reavivamento de recém-nascidos; instrumento engenhoso para operação do tórax; ensaio inédito de remoção de placenta em casos hemorrágicos e tese totalmente inovadora sobre a circulação de vasos capilares. Tomando conhecimento do uso de éter para tornar as operações mais humanas, rapidamente desenvolveu estudos para a aplicação da dose correta e segura, transformando-se no mais respeitado anestesista de Londres, atendendo membros da família imperial inglesa.

Com o surgimento do primeiro indiscutível caso de cólera asiática que ocorreu no outono de 1.848, em Londres, que foi o do marinheiro John Harnold com diagnóstico de intensa evacuação de água de arroz, completa supressão da urina, febre ininterrupta seguido de óbito algumas horas depois. Dr. Snow redirecionou seu foco para estudar a causa e a forma de transmissão do cólera asiático. Neste mesmo ano apresentou sua tese de que o “mal do cólera era introduzido diretamente no tubo digestivo pela boca…. e que a água era o principal meio transmissor embora não o único, e que substâncias contidas nas fezes dos pacientes afetados pelo cólera seriam o mal em si” e não por inalação dos miasmas provenientes das drenagens e esgotos que empesteavam o ar londrino.

Esta conclusão foi baseada nas análises estatísticas da ocorrência de óbitos pelo cólera na zona sul da metrópole inglesa que era abastecida com água de duas companhias privadas. A primeira, Southwark & Vauxhall, tinha água contaminada por impurezas fecais, enquanto a segunda, Companhia Lambeth, tinha água pura. A proporção era de 71 mortos por 10.000 casas abastecidas pela Southwark&Vauxahall contra 5 óbitos por 10.000 casas abastecidas pela Lambeth. John Snow trabalhou os dados de mais de 300.000 mortos pela cólera classificando cada óbito por uma das 9 empresas particulares de água que abasteciam os 33 distritos de Londres, por cada casa porque com a acirrada concorrência as companhias assentaram redes de distribuição lado a lado, em paralelo, até mesmo nos menores becos. As maiores taxas de mortalidade sempre ocorreram entre os consumidores de água fornecida pela Southwark & Vauxhall que tinha como manancial o rio Tâmisa no trecho mais poluído pelos lançamentos de esgotos e sem nenhuma preocupação em melhorar a qualidade da água como fizeram outras empresas com execução de filtros

Snow, a partir de conjunto de evidências, desenvolveu análises com conceitos que ainda hoje constituem ferramentas da epidemiologia como a distribuição temporal e espacial. Em 1858 publica o artigo Drenagem e Abastecimento de Água em conexão com a Saúde Pública, base do atual conceito de que SANEAMENTO É SAÚDE.

Em 1.991, originário do Peru, eclode uma epidemia de cólera no Brasil com 168.644 casos notificados e 2.037 óbitos principalmente nas regiões norte e nordeste. Em São Paulo foram notificados somente 2 casos importados, mas a grande concentração de pessoas morando em condições precárias das favelas e ocupações irregulares, boa parcela sem saneamento básico, fez acender o alerta da possibilidade da epidemia. A grande cobertura da rede de distribuição de água derrubou a perspectiva pessimista de epidemia sem controle, em grande escala. A Sabesp fortaleceu seu papel social e com forte participação das equipes de controle sanitário que levaram a aplicação de cloro nos poços rasos (garrafas plásticas com areia e tabletes de cloro), água desinfetante para higienização das casas e, principalmente, comunicação sobre os procedimentos de higiene para prevenção da contaminação do vibrio cholerae. Em conjunto com a vigilância epidemiológica, nas ETEs monitorou-se os efluentes para detectar eventual presença do vibrião.

Não ocorreu nenhum caso autóctone do cólera em São Paulo.

Integra o quadro dos valores permanentes dos sabespianos a garantia da qualidade da água potável e, atendendo esta missão, a engenheira Ester Feche, em 1996, desenvolve tecnologia, em conjunto com o professor doutor José Benedito, do laboratório de eletrônica da Escola Politécnica da USP, para automação do controle das análises laboratoriais das 5 Unidades de Negócio de Distribuição da região metropolitana de São Paulo. O NET CONTROL transformou os laboratórios, de bancadas de azulejo branco com cadernos na ponta para anotação dos resultados laboratoriais que eram posteriormente digitados dentro do “aquário” onde estava o computador, em unidades de análises técnicas dos resultados emitidos pelos analisadores eletrônicos que encaminhavam diretamente ao NET CONTROL, sistema central de concentrador de todos os resultados laboratoriais da metropolitana, propiciando maior confiabilidade e total rastreabilidade das informações. Foi apresentado em seminário de controle sanitários promovido pela American Water Work Association, nos Estados Unidos , e eleito o melhor sistema laboratorial de controle de qualidade da água do congresso .

Na busca de novos negócios. o NET CONTROL foi vendido em 1.988 para a EMBASA, empresa baiana de saneamento, e implementado pela Ester Feche e Aparecida Rivelli, com o acréscimo do módulo de balneabilidade para os soteropolitanos.

Atualmente o NET CONTROL atende todos os laboratórios da Sabesp, de forma corporativa.

Na busca da melhoria contínua da gestão do controle de qualidade da água potável, em 1.998, Vasti Facincani coordenou com os gerentes dos controles sanitários da Norte, Márcio Luis Rocha P. Fernandes; da Sul, Clara Campos Cosa; da Centro Elide Patela; da Leste, Wagner Hall e da Oeste, Sueli Aparecida Veronezi, a primeira Certificação brasileira simultânea dos 5 Laboratórios da ISO 9.001 pela Fundação Vanzolini e auditoria de Jakob Schmerling e recertificados em 1.999 pela Certificadora Alemã BR Tuv.

São importantes desenvolvimentos tecnológicos que contribuíram para a qualidade da água potável, portanto, para redução de doenças de transmissão hídrica, redução significativa da mortalidade infantil e melhoria da qualidade de vida, que foram coordenadas por grandes mulheres sabespianas.

Compartilhe
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email
Share on print
Imprimir
Outros colunistas

Cadastro

Cadastre-se e fique por dentro das novidades da Revista Saneas.