O contexto das recentes tensões entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irã, intensificadas em fevereiro de 2026 com a recente ação militar conduzida pelos EUA, expõe as fragilidades da geopolítica global e evidencia tensões estruturais na atuação internacional dos EUA em contextos de segurança energética.
Esse conflito está causando impactos para diversos países, inclusive para o Brasil, com elevação dos preços do petróleo em escala global.
Um dos gigantes econômicos do tabuleiro global é a China, a maior importadora de petróleo e parceira estratégica do Irã. Como ocorre com todos os países dependentes do petróleo daquela região, a China sentiu o impacto da escalada entre EUA e Irã, pois uma fração significativa do petróleo chinês vem do Irã e países da região do Golfo Pérsico, transportado pelo Estreito de Ormuz. A liderança chinesa tem adotado uma posição de neutralidade pragmática nessa escalada, defendendo publicamente o diálogo e a desescalada, buscando proteger seus interesses energéticos e econômicos na região, sem envolvimento militar.
As principais lideranças chinesas vêm declarando grave preocupação com a tensão na região e pedindo fim das hostilidades desde o seu início. Contudo, a China encontra-se numa posição menos vulnerável em meio ao contexto caótico na região. Sua atuação vem se norteando por cálculo estratégico, tem mantido a interlocução com os países envolvidos na escalada militar, e a visita do Presidente Trump à China em maio de 2026 foi interpretada como um indicativo da capacidade de interlocução da liderança chinesa em um contexto de elevada complexidade geopolítica.
Para entender essa dinâmica, é necessário observar o papel da China no sistema energético global. Até 2009, a economia chinesa consolidou-se como um modelo de crescimento intensivo em energia e exportações, sustentado por rápida industrialização e forte dependência de combustíveis fósseis, o que resultou na expansão significativa de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE). Adicionalmente, a poluição do ar se intensificou no país, tornando-se um risco para os principais centros urbanos. Por volta de 2009 o país ultrapassou os Estados Unidos como o maior consumidor de energia global e o maior emissor global de GEE, mantendo-se nessa posição desde então.
Em 2018, o consumo de energia do país representou 23,6% do consumo global e 34,5% do crescimento líquido do consumo global de energia. Em 2024, a China respondia por 27% do consumo global, mantendo-se como o maior consumidor mundial, e o país continua sendo o principal propulsor do crescimento global da demanda por energia. Seu consumo primário atingiu cerca de 5,96 bilhões de toneladas equivalentes de carvão, indicador que mede o volume total de energia utilizada no país.
Apesar de ter se mantido como o maior consumidor global de carvão, respondendo por 58% do uso global de carvão, os investimentos na expansão das energias não fósseis e renováveis têm sido expressivos, detendo atualmente mais de 40% da capacidade global de energia eólica e solar. Ainda assim, o carvão encontra-se em um declínio relativo na China.
Esse perfil energético tem implicações diretas na forma como o país responde a crises geopolíticas. A intensa demanda por energia e o perfil das emissões chinesas constitui fator definidor da trajetória do país em termos de redução das emissões de GEE, no âmbito do Acordo de Paris das Nações Unidas.
A performance chinesa no campo da expansão e modernização da sua matriz energética é estratégica. Nos anos recentes, o país instalou volumes recordes de capacidade solar e adicionou dezenas de gigawatts (GW) de eólica por ano, atingindo cerca de 887 GW de solar, 521 GW de eólica, 436 GW de hidrelétrica, totalizando ~1.889 GW de renováveis. O ritmo dessa expansão também é notável, por exemplo, em 2023 foram adicionados aproximadamente 260 GW de solar e cerca de 75 GW de eólica.
As energias renováveis já representam cerca de 86% da nova capacidade instalada do setor elétrico, as energias eólica e solar poderão chegar a 3.600 GW até 2035, sendo que a energia solar pode chegar a 38% da eletricidade até 2050. Além disso, destaca-se que as energias renováveis já ultrapassam carvão em termos de capacidade instalada.
Na matriz energética chinesa, a predominância ainda é fóssil, mas a transição energética, já está em curso. Em 1970, cerca de 82% da matriz era composta por fontes fósseis, proporção que caiu para aproximadamente 56% em 2020, uma retração expressiva diante do rápido crescimento do PIB no período. As fontes não fósseis, incluindo renováveis e nuclear, já representam cerca de 20% da matriz energética, com metas de expansão contínua nas próximas décadas.
Nesse contexto, a atual crise no Golfo ajuda a evidenciar uma tendência mais ampla: a China vem liderando globalmente a expansão das energias renováveis, concentrando mais de 40% da capacidade instalada de energia solar e eólica, ao mesmo tempo em que mantém uma matriz energética ainda baseada no carvão com indícios de declínio, evidenciando uma transição energética de caráter incremental.
Com décadas de investimento estatal rumo à diminuição da dependência das energias fósseis, as tensões geopolíticas na região do estreito de Ormuz pressionaram os preços dos combustíveis intensivos em carbono. Essa pressão é relativamente menor no caso chinês, dado o avanço de sua matriz elétrica baseada em fontes renováveis.
O conflito não é local. Desencadeou impactos sistêmicos, provocando um choque energético global sem precedentes recentes, causando interrupções históricas no fornecimento de petróleo e fez os preços subirem rapidamente, ameaçando os países de forma assimétrica.
A crise expõe uma vulnerabilidade estrutural, ou seja, a dependência de combustíveis fósseis provenientes de regiões em confronto. Além disso, cerca de três quartos da população mundial vive em países importadores de energia fóssil, depende de energia que não tem controle do fornecimento, nem dos fluxos de precificação, nem da garantia de acesso ao produto. Contudo, além da China manter relações estratégicas com os atores envolvidos, está na frente quando o assunto é investir na redução da dependência dos combustíveis fósseis, historicamente associados a dinâmicas de segurança energética e interesses estratégicos de grandes potências, incluindo os EUA.
A geopolítica global está mais complexa e os sistemas de energia mais vulneráveis às crises e tensões, inclusive armamentistas. Os riscos da expansão dessas políticas de segurança com implicações geopolíticas assimétricas são: o aumento da inflação global, a pressão sobre alimentos, o risco de insegurança alimentar e desaceleração econômica, e acirramento das emissões de GEE.
Essa reflexão expõe uma evidência: os combustíveis fósseis são risco sistêmico, não apenas energético. As energias renováveis emergem como resposta estratégica. Políticas domésticas com forte presença de energias não fósseis e renováveis tendem a ser menos expostas a conflitos, menos voláteis em termos de preço em crises desencadeadas por políticas agressivas para expansão de fontes intensivas em carbono.
A concentração da oferta de derivados de petróleo em regiões geopoliticamente instáveis e a dependência de rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, que responde por 20% do fluxo mundial de petróleo e gás, tornam a segurança energética global refém de conflitos, reforçando a constatação de que o acesso às fontes de combustíveis é um fator de estabilidade nacional e global.
A dependência dos combustíveis fósseis expõe os países a riscos decorrentes de instabilidades geopolíticas externas, em algum país remoto, com potencial de impactar nosso viver.
A geopolítica no Golfo Pérsico reforça um diagnóstico já consolidado por organismos internacionais como ONU, IEA e FMI: a dependência global de combustíveis fósseis, concentrados em regiões instáveis e dependentes de gargalos logísticos, constitui não apenas um risco climático, mas uma vulnerabilidade estrutural para a segurança econômica e energética global.
Observa-se, nesse contexto, uma tendência clara de após algumas décadas com muitos exemplos gritantes, como as intervenções militares no Oriente Médio por grandes potências, a próxima escalada talvez já esteja em gestação. Consequentemente, as energias renováveis, além de reduzirem as emissões de GEE, são um caminho para segurança energética.
Nesse contexto, a transição energética deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ser uma condição estratégica para a estabilidade econômica e geopolítica global. Os países que mais avançarem rumo à transição energética, não apenas redefinirão o equilíbrio energético global, mas também apontarão o caminho concreto para reduzir a fragilidade estrutural do sistema energético internacional.






