Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 10 – Educação ambiental, cultura e projetos socioeducativos: fortes aliados dos setores de meio ambiente e saneamento

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A educadora e gestora pública Ísis Gonçalves fala sobre a importância de fomentar projetos socioeducativos para promover a transformação ambiental desde a infância.

Um dos caminhos mais transformadores para o futuro dos setores de meio ambiente e saneamento passa pela educação e pela cultura construída em torno de seus principais temas. Mais do que incorporar novas tecnologias, é essencial promover uma mudança de consciência e comportamento na sociedade.

Pensando nisso, a educadora multifacetada Ísis Gonçalves, professora, atriz, musicista e gestora pública com mais de 40 anos de atuação em Atibaia (SP), discute o potencial transformador da educação ambiental, da cultura de paz e dos projetos socioeducativos como fortes aliadas dos setores ligados ao meio ambiente e a água.

Confira mais uma entrevista da Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação, que celebra as quatro décadas da Associação dos Engenheiros da Sabesp. A iniciativa reúne 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.

Saneas Online – Quando falamos de meio ambiente e saneamento, o discurso acaba sendo mais técnico e menos acessível para a população. Pensando na sua experiência como gestora pública e educadora, de que forma a escola pode ser um polo de transformação ambiental para levar esses temas complexos para o cotidiano das comunidades?

Ísis Gonçalves – Em síntese, é por meio de projetos que envolvam toda a escola. Falar sobre isso, por mais técnico que possa parecer, é extremamente humano, porque você fala de vida. Uma coisa técnica é importante para a manutenção da vida e a partir daí se pode desenvolver atividades em sala de aula e fora dela e estar tratando sobre esses temas.

Falar sobre meio ambiente e saneamento nas escolas fica bloqueado, muitas vezes, pela própria desconexão entre as secretarias, pensando em escala municipal. Se os conselhos, por exemplo o de Cultura ou a Secretaria de Educação, trabalhassem de forma conjunta, tendo uma mesma visão a respeito da cidade, a discussão ficaria muito mais fácil.

Também tem o ponto das coisas estarem desvinculadas. Não existe uma coerência ou uma aproximação de interesses das secretarias que trabalham isoladamente, às vezes para atender a um mesmo problema.

Nisso, o projeto tinha o papel de trabalhar dentro da escola para que a criança se sentisse mais do que responsável, que ela fosse capaz de se inteirar com os problemas da sua comunidade, sem precisar ir muito longe. Colocar os alunos em contato com as dificuldades que existem na sua comunidade é fácil, eles mesmos identificam. Um aluno sabe que está com problema de água em casa, sabe que o ônibus chega atrasado por conta de ter que passar por um espaço que está prejudicado por encanamentos que estejam fora da calçada 

Então, a vemos que é uma coisa inerente, não deve ter separação. Lógico que cada uma dentro das suas experiências e da sua capacidade de entendimento, mas não é assunto de gente grande, é assunto de gente, então não tem porque não discutir essas questões. 

Saneas Online – Sobre o Projeto ENCONTR’ARTE, pode compartilhar um pouco de como essa iniciativa atuou unindo arte, meio ambiente e cultura de paz?

Ísis Gonçalves – Esse projeto ficou na escola de 1992 até 2018, ele iniciou com pequenas ações que depois foram colocadas sob o guarda-chuva do ENCONTR’ARTE.

Não era mais um projeto, na realidade, era um programa. Passaram quatro gerações, no mínimo, de crianças da primeira à oitava série que participaram e hoje eles trazem esse sentimento de gratidão porque reconhecem o quanto foi importante para a formação deles como pessoas.

Isso porque a educação, quando saímos da escola, vira cultura. A educação já é uma proposta de cultivar e a cultura também cultiva, ela também planta e cuida. Portanto a cultura é uma continuação da educação do ser humano e a cultura de paz é aquilo que todo mundo busca: uma vida qualificada, com dignidade dentro daquelas condições em que se vive.

No projeto, tínhamos muitas atividades artísticas porque a escola não pode ser só preencher um balde, você tem que acender uma chama, se não, não adianta nada. Se acontece algum problema que fura o fundo do balde, tudo que você colocou nele vai embora, mas uma chama, se for bem alimentada, pode virar uma coisa muito maior, que vai aquecer e vai fazer uma fogueira positiva que fica para sempre na criança.

Então, trazer a arte para o cotidiano dá a possibilidade de se expressar, principalmente quando não é uma arte específica, mas que você tem liberdade de criação. O ENCONTR’ARTE promovia coral, peças de teatro, criação de poesias, desenhos e também tinha o jornal da escola, dessa forma os alunos criavam facilidade de se expressar e por isso eles não tiveram medo de se apresentar na câmara municipal para falar sobre a carta da terra, sobre a conferência nacional do meio ambiente, e eles se sentiam com propriedade porque eles exercitavam isso no ambiente escolar.  

Saneas Online – Com base na sua atuação, qual é o impacto social e ambiental de projetos socioeducativos como este?

Ísis Gonçalves – O impacto é grande. É grande porque essas crianças começam a agir nos seus próprios bairros.

Eu trabalhei numa escola que atendia 55 bairros, então vinham crianças de todos os pontos da cidade, vinha gente da zona rural, pessoal da periferia, e para mim era muito gratificante ver que essas pessoas, com vivências diferentes conviviam muito bem dentro da escola, porque o que a gente falava lá dentro era para todo mundo. 

Todo mundo tinha impacto, seja menor ou maior, mas todos tinham. Tudo que ensinávamos na escola eles levavam para casa, desde a questão do lixo no lugar correto até o cuidado com o gasto com a água. Mesmo que a família seja resistente, a criança começa a ter essa visão e ela começa a colocar isso em todos os lugares. 

Nós dávamos essas noções para eles, então em casa eles acabavam exercitando também e o impacto era tão grande que a prefeitura nos tomou como parceiros no movimento da cidade sustentável, que era um projeto em nível estadual que levava as crianças do teatro e do coral para vivências em centros de idosos, para centros comunitários, justamente para levar essa proposta. 

Então, de certo modo, não é só criança. Até o ensino médio e o início da faculdade chegamos com inúmeros sonhos, mas sonhos daquilo que sonhamos lá atrás, do que a escola nos trouxe. Quanto maior a vivência dentro da escola, mais sonhos você tem para realizar. 

E isso vai mudando toda uma comunidade e a sociedade. Eu continuo acreditando nisso porque se não, tudo que eu fiz até agora perderia o sentido.

Saneas Online – Diante das mudanças climáticas, a importância da cultura e da educação têm sido frequentemente citadas no debate ambiental mundial. No Brasil, qual o principal desafio que essas duas frentes enfrentam para serem fortes aliadas das soluções de meio ambiente e saneamento?

Ísis Gonçalves – Infelizmente, elas estão sofrendo um enfraquecimento e sucateamento. O que é uma pena, porque você vê que a questão da cultura pode ser a solução, principalmente nas cidades pequenas, porque ela poderia trabalhar em conjunto com a assistência social na questão da economia criativa. Então, já iria avançar na questão da Secretaria de Desenvolvimento Econômico junto com a Secretaria da Cultura e a Secretaria da Educação. Olha o que você poderia trabalhar se entrasse nisso a preocupação de divulgar de maneira se fossemos discutir essas coisas de uma maneira mais sensível você tem aí a questão da Cultura. 

Então, um grande desafio que eu vejo, além do sucateamento, é da própria educação, com a cultura e as outras secretarias e outros fatores políticos, de estarem olhando para o mesmo lado. Embora eu veja na nossa região uma preocupação no sentido de as pessoas quererem fazer essas participações. Geralmente quem faz parte dos grupos de meio ambiente aqui na cidade de Atibaia, muitos são voltados para a cultura, porque vemos que a cultura é questão de vida. É ter um olhar positivo em relação à natureza e isso toca muito profundamente, mas ainda precisaríamos de mais incentivo e talvez mais respeito e reconhecimento do valor e da potência que isso pode gerar. 

Quanto mais forem abertos espaços de atuação maior será o impacto. Como foram muitos anos do projeto ENCONTRARTE e ele é grande para explicar para as pessoas, nós fizemos a ciranda dos S’s, que é mais sucinta e diz o seguinte: pensar com sensibilidade, sentir com solidariedade, agir com sustentabilidade, semear a sabedoria e saber ser. 

Se falava apenas de educação ambiental até 2000, depois mudou para sustentabilidade. Que é a habilidade de sustentar, então enquanto falávamos de educação ambiental e de cuidar do meio ambiente, a sustentabilidade já trouxe isso no escopo e quando eu sustento alguma coisa eu tanto cuido quanto transformo.

Saneas Online – Pensando na sua atuação ligada ao poder público no Conselho Municipal de Política Cultural de Atibaia com contato direto com a população, de que forma você encara a necessidade de entrelaçar meio ambiente, saneamento e cultura?

Ísis Gonçalves – Esse entrelaçamento acontece a partir da ação de agir localmente pensando globalmente.

Quando pensamos e agimos localmente olhando é você pensar também no futuro, é aí que a arte entra, porque ela é perene. A arte se sustenta e ela vai adiante, então é uma educação permanente para que nosso olhar seja mais sensível para as cidades.

Através da arte você tem mais sensibilidade para encarar coisas que precisam ser mudadas, se cria coragem para poder transformar, seja numa crítica literária, seja num cartaz, numa poesia, numa peça de teatro, ou em uma música, você traz essas realidades de uma forma que também sensibilize as outras pessoas e esse trabalho que você faz agora continua, porque essas marcas ficam. 

Nos Conselhos de Política Cultural trabalha-se com a questão do patrimônio e não é só o patrimônio arquitetônico, o imaterial e o patrimônio natural também são englobados. Então, como dialogamos com todas essas questões faz pensarmos em novas soluções. 

Então o meio ambiente, o saneamento e a cultura se entrelaçam sim e os conselhos precisam ser mais valorizados e ouvidos nesse sentido.