Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 17 – Ciência, inovação e gestão integrada: caminhos para o futuro do saneamento

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Iene Christie Figueiredo, pesquisadora e professora da UFRJ, analisa a evolução do saneamento brasileiro nas últimas décadas e ressalta o papel da universidade na produção de conhecimento e na oferta de um olhar técnico independente, contribuindo para que o poder público e a sociedade acompanhem a evolução do setor e cobrem resultados.

O saneamento brasileiro passou por avanços significativos nas últimas décadas, impulsionados pela evolução tecnológica, pelo fortalecimento da gestão e pela consolidação de políticas públicas voltadas à universalização dos serviços. Para a engenheira civil Iene Christie Figueiredo, professora associada da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora nas áreas de tratamento de água e esgoto e qualidade das águas, o setor deixou de ser visto apenas como infraestrutura para assumir um papel estratégico na promoção da saúde pública, da preservação ambiental e da segurança hídrica.

Nesta entrevista à série especial “AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação”, a especialista aborda as principais transformações observadas no setor e destaca o potencial de tecnologias como reúso de água, soluções baseadas na natureza e monitoramento ambiental. A especialista defende ainda a pesquisa aplicada, a formação de profissionais e o fortalecimento da regulação como pilares para que o Brasil alcance a universalização do saneamento nas próximas décadas. Confira:

Saneas Online – Ao longo de sua trajetória como pesquisadora e professora, quais foram as principais transformações observadas no saneamento ambiental brasileiro nos últimos 40 anos e quais impactos elas trouxeram para a qualidade de vida da população?

Iene Christie Figueiredo – Entrei nessa área ainda na graduação em Engenharia Civil, no fim dos anos 1990, e desde então acompanhei de perto uma mudança de mentalidade importante: o saneamento deixou de ser tratado como uma obra de infraestrutura isolada e passou a ser entendido como um sistema integrado, que depende de gestão, de monitoramento contínuo e de articulação entre diferentes atores — poder público, operadoras, universidade e sociedade.

Do ponto de vista técnico, vivemos avanços muito concretos: processos de tratamento mais eficientes, maior capacidade analítica para avaliar a qualidade da água e do esgoto, e um arcabouço legal mais robusto, com o Marco Legal do Saneamento trazendo metas claras de universalização.

A consolidação de bases de dados nacionais consistentes — séries históricas de qualidade de água, de atendimento por coleta e tratamento de esgoto, de investimentos realizados — transformou a forma como planejamos. Hoje é possível diagnosticar uma bacia, comparar municípios e cobrar metas com base em dados concretos, algo que há 20 ou 30 anos era muito mais frágil. Isso elevou o patamar técnico do planejamento em saneamento no Brasil e se tornou uma ferramenta de gestão indispensável.

E os resultados de investimentos consistentes e sustentados no tempo aparecem no território de forma inquestionável. A recuperação da Lagoa de Araruama, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, é um exemplo muito claro: décadas de aporte de esgoto não tratado comprometeram gravemente a qualidade da água da maior laguna hipersalina do mundo, e foi o investimento continuado em coleta e tratamento de esgoto na bacia que permitiu reverter parte desse quadro. Onde há investimento consistente e planejado, o cenário ambiental muda.

Mas é preciso ser honesta: os avanços não chegaram de forma equânime. Ainda temos parcelas significativas da população, especialmente nas periferias e em municípios menores, sem acesso à água potável e à coleta e tratamento de esgoto. O impacto na qualidade de vida é direto — onde o saneamento avançou, caiu a incidência de doenças de veiculação hídrica, melhorou a balneabilidade de praias e rios, e a própria valorização urbana acompanhou essa melhoria. Onde ele não chegou, os indicadores de saúde pública continuam refletindo essa ausência.

Saneas Online – A senhora desenvolve pesquisas nas áreas de tratamento de água, esgoto e qualidade das águas. Quais inovações tecnológicas considera mais promissoras para ampliar a eficiência e a sustentabilidade dos sistemas de saneamento no Brasil?

Iene Christie Figueiredo – Vale destacar que a ciência brasileira tem sido muito promissora no desenvolvimento de tecnologias aplicadas ao saneamento. O desafio, porém, não está apenas em criar novas soluções, mas em fazer com que aquelas que já demonstraram eficiência e viabilidade técnica alcancem escala e cheguem efetivamente ao cotidiano das pessoas. Nesse contexto, destaco quatro frentes estratégicas que precisam avançar em termos de disseminação e implementação.

A primeira é a implementação das tecnologias que viabilizam o reúso de água em estações de tratamento de água e de esgoto, consolidando o conceito de estações sustentáveis — convertendo unidades antes projetadas apenas para minimizar impacto e cumprir requisitos legais em verdadeiras fábricas de recursos valiosos, como água de reúso, biogás e nutrientes recuperáveis.

A segunda é a aplicação mais efetiva das soluções baseadas na natureza no setor de saneamento. Além de promoverem o tratamento com custo de operação mais baixo, essas tecnologias devolvem função ecológica ao território e se integram melhor à paisagem urbana e rural. É uma frente que ainda precisa amadurecer em escala no Brasil, mas os resultados já observados em experiências pontuais são muito animadores.

A terceira, que ganhou força nos últimos anos, é o uso de dados e monitoramento ambiental como ferramenta de gestão em saúde pública. Um exemplo concreto foi o projeto Monitora Corona, que realizou o monitoramento espaço-temporal da concentração de Sars-CoV-2 nos esgotos sanitários da Região Metropolitana do Rio de Janeiro como estratégia de apoio à vigilância epidemiológica. Esse tipo de vigilância tem potencial para monitorar outros agentes patogênicos presentes no efluente doméstico e se tornar uma ferramenta permanente de saúde pública.

Por fim, precisamos destacar os contaminantes emergentes, cuja presença nos corpos hídricos só passamos a enxergar com clareza à medida que a capacidade analítica avançou. Isso exige que a pesquisa científica esteja um passo à frente, testando rotas de tratamento mais avançadas para depois orientar a gestão pública e a operação dos sistemas sobre o que efetivamente precisa ser monitorado e controlado. Em todas essas frentes, o desafio comum é o mesmo: desenvolver tecnologia aplicada acessível e confiável, capaz de sair do laboratório e chegar à escala real de implementação.

Saneas Online – A poluição dos corpos hídricos continua sendo um grande desafio para o país. Como a integração entre pesquisa científica, gestão pública e operação dos sistemas de saneamento pode contribuir para a recuperação e preservação dos recursos hídricos?

Iene Christie Figueiredo – Essa integração é, para mim, o ponto central. Um projeto de engenharia bem concebido não resolve sozinho a poluição de um corpo hídrico se não estiver ancorado em um diagnóstico correto da bacia, em uma gestão pública capaz de fiscalizar e em uma operação que sustente, no dia a dia, o desempenho projetado. O planejamento tem que ser tecnicamente embasado, mas também factível do ponto de vista institucional e financeiro do município.

Do ponto de vista técnico, isso significa tratar a bacia hidrográfica como unidade de planejamento, e não o município isoladamente — poluição de um corpo hídrico raramente respeita os limites administrativos. Exige também monitoramento contínuo e dados comparáveis entre os diferentes atores envolvidos, para que seja possível saber se uma intervenção está de fato surtindo efeito no corpo receptor, e não apenas deslocando o problema no tempo ou no espaço.

O papel da universidade nessa engrenagem é gerar conhecimento aplicável e formar os profissionais capazes de operar e gerir esses sistemas com competência — e é também oferecer um olhar técnico independente que ajuda o poder público e a sociedade a cobrar resultados.

Saneas Online – Pensando nos próximos 40 anos, quais serão os principais desafios para a universalização do saneamento e qual o papel das universidades na formação de profissionais e na produção de conhecimento para enfrentar essas questões?

Iene Christie Figueiredo – O desafio mais evidente, ainda que histórico, continua sendo garantir o esgotamento sanitário integral para áreas ainda não atendidas, muitas delas em regiões de urbanização precária, onde a solução de engenharia precisa dialogar com a realidade social e territorial. A isso se somam as mudanças climáticas, que já provocam eventos extremos capazes de comprometer tanto o abastecimento quanto a capacidade dos sistemas de esgotamento sanitário. E há o desafio da gestão de subprodutos do saneamento, cujo potencial de reaproveitamento ainda é pouco explorado no país.

Um ponto que considero central para os próximos anos, e que tende a ganhar ainda mais relevância com o avanço da participação da iniciativa privada na prestação dos serviços, é o fortalecimento da regulação. O Marco Legal do Saneamento trouxe avanços importantes nesse sentido, mas a capacidade técnica e institucional das agências reguladoras ainda precisa evoluir para acompanhar esse novo cenário, cada vez mais plural, com diferentes modelos de concessão convivendo lado a lado. Independentemente do modelo de prestação, o que garante um serviço de qualidade, tarifa justa e equidade no atendimento é a existência de uma regulação técnica robusta, com metas claras, indicadores de desempenho bem definidos, transparência na informação e fiscalização efetiva do cumprimento dos contratos — inclusive nas áreas de maior vulnerabilidade social. É esse arcabouço regulatório consistente, mais do que o modelo de gestão em si, que protege o usuário e assegura que a universalização não deixe ninguém para trás.

Quanto ao papel da universidade, tenho cada vez mais convicção de que ele começa na graduação. É nessa etapa de formação, mais do que em qualquer outra, que se transforma um aluno em um bom profissional: alguém que entende de processo, mas também de gestão, de território e de impacto social do seu trabalho. Some-se a isso a produção de conhecimento aplicado e a atuação da universidade como assessoria técnica qualificada para elaboração de planos e políticas públicas. É dessa combinação entre bons profissionais formados e conhecimento aplicado à realidade brasileira que vai depender a universalização do saneamento nas próximas décadas.

40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro

A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.