Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa, fala sobre inovação, mudanças climáticas, segurança hídrica e o papel da ciência na construção de um futuro mais sustentável.
A ciência brasileira vive um momento decisivo diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela segurança hídrica e pela necessidade de ampliar a sustentabilidade nos sistemas produtivos e urbanos. Em meio a esse cenário, a inovação surge como caminho indispensável para transformar setores estratégicos como agricultura, saneamento e gestão ambiental, aproximando conhecimento científico, desenvolvimento econômico e qualidade de vida.
Na série especial em comemoração aos 40 anos da Associação dos Engenheiros da Sabesp*, a pesquisadora da A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Mariangela Hungria, reflete sobre o reconhecimento internacional recebido recentemente — ao ser incluída entre as 100 pessoas mais influentes do mundo em 2026 pela revista americana Time — e aborda temas como a importância de aproximar a ciência da sociedade, além dos impactos das novas tecnologias na produção de alimentos e na preservação dos recursos hídricos.
A conversa também destaca o papel da pesquisa na adaptação aos eventos extremos e reforça a necessidade de investimento contínuo em inovação para garantir um futuro mais resiliente e sustentável.
Confira a entrevista na íntegra:
Saneas Online – A senhora foi reconhecida recentemente pela TIME como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. O que esse reconhecimento representa para a ciência brasileira e para a pesquisa desenvolvida pela Embrapa?
Mariangela Hungria – Eu realmente amo o que faço e sempre acreditei que seria viável dedicar minha carreira ao uso de soluções biológicas para substituir produtos químicos na agricultura. Nunca imaginei receber tantos prêmios e homenagens. Cada reconhecimento me emociona profundamente.
A maioria dessas premiações esteve ligada ao agronegócio, o que considero um reconhecimento importante para a agricultura brasileira e para os agricultores do país. No ano passado, recebi o World Food Prize*, um prêmio voltado à alimentação de forma ampla, não apenas à produção agrícola. Isso ampliou ainda mais a visibilidade do trabalho.
O reconhecimento da Time teve um significado especial porque ultrapassou a bolha da agricultura e da ciência. Entre artistas, atletas e personalidades de diversas áreas, percebi que a sociedade está reconhecendo a importância da ciência, da pesquisa e de formas mais sustentáveis de produzir alimentos, com menor uso de produtos químicos. Para mim, foi um sinal de que estamos conseguindo aproximar a ciência da sociedade.
Recentemente, também fui anunciada como vencedora do prêmio “Faz Diferença 2025”, do jornal O Globo, na categoria Economia. Mais uma vez, isso demonstra que o investimento em ciência gera retorno econômico e benefícios concretos para a sociedade. Esses reconhecimentos mostram que a sociedade valoriza a inovação científica e entende sua importância.
Saneas Online – Sua trajetória é marcada pelo desenvolvimento de soluções biológicas que transformaram a agricultura brasileira. Como a inovação baseada em ciência pode inspirar outros setores estratégicos, como o saneamento, na busca por mais eficiência e sustentabilidade?
Mariangela Hungria – Ainda somos muito ineficientes em diversos setores. No saneamento, por exemplo, há grandes perdas de água nas redes de distribuição e muito espaço para inovação em detecção de vazamentos, reaproveitamento de resíduos e melhoria da eficiência dos sistemas.
Na agricultura, o desafio também é enorme. Ainda não conseguimos substituir totalmente os fertilizantes químicos e muitos deles têm baixa eficiência de aproveitamento pelas plantas. No caso do nitrogênio, em geral, menos de 50% é efetivamente utilizado. Isso significa desperdício econômico e impactos ambientais importantes.
A inovação nunca foi tão necessária. As mudanças tecnológicas estão acontecendo muito rapidamente e, se o Brasil não investir em ciência e inovação, ficará dependente da importação de tecnologias de outros países. Precisamos avançar em áreas como inteligência artificial, adaptação às mudanças climáticas e produção sustentável de alimentos. Isso vale para a agricultura, para o saneamento e para praticamente todos os setores da sociedade.
Saneas Online – Agricultura e saneamento dependem diretamente da qualidade da água e da preservação do solo. Como o Brasil pode integrar melhor essas agendas para proteger mananciais, ampliar a segurança hídrica e garantir qualidade de vida à população?
Mariangela Hungria – A água é fundamental tanto para o saneamento quanto para a agricultura. Utilizar água contaminada na irrigação significa comprometer a qualidade dos alimentos e colocar a saúde da população em risco.
Esse problema é ainda mais sensível nos cinturões verdes ao redor das grandes cidades, onde são produzidas hortaliças e alimentos frescos destinados à população e à merenda escolar. Muitos municípios já incentivam a compra de alimentos produzidos próximos às cidades, fortalecendo a agricultura familiar e oferecendo alimentos mais frescos às crianças. Mas isso exige água limpa e sistemas adequados de saneamento.
O Brasil possui grande disponibilidade hídrica, mas isso não basta. É preciso garantir qualidade da água. Por isso, a preservação de mananciais, matas ciliares e áreas protegidas é tão importante. Temos um Código Florestal muito avançado, mas ele sofre pressões constantes. Preservar os recursos hídricos é essencial para garantir água para as pessoas e para a produção de alimentos.
Saneas Online – Em um cenário de mudanças climáticas, eventos extremos como secas e enchentes afetam tanto a produção agrícola quanto a infraestrutura de saneamento. Como a ciência pode ajudar o Brasil a se adaptar a esses desafios de forma integrada?
Mariangela Hungria – Somente a ciência permitirá enfrentar adequadamente as mudanças climáticas. E isso exige a atuação conjunta de diferentes áreas do conhecimento.
Precisamos avançar muito nos estudos climáticos, na coleta de dados e no desenvolvimento de modelos mais precisos de previsão. Hoje, ainda temos dificuldades em prever eventos extremos com precisão suficiente.
Na agricultura, será necessário investir em melhoramento genético para desenvolver plantas mais tolerantes ao calor e à seca, além de rever o zoneamento agrícola de várias culturas. Regiões que hoje já enfrentam temperaturas elevadas poderão sofrer aumentos ainda maiores.
Na área em que atuo, temos observado que determinados microrganismos ajudam as plantas a tolerar melhor a seca. Isso abre espaço para novas tecnologias e produtos biológicos.
As mudanças climáticas também terão impactos profundos na saúde pública. O aumento da temperatura pode favorecer a proliferação de insetos transmissores de doenças, bactérias e outros agentes patogênicos. Além disso, há uma questão social importante: as populações mais vulneráveis sofrem muito mais com ondas de calor e eventos extremos. Tenho um colega que costuma citar isso, a injustiça climática: enquanto o rico liga o ar-condicionado, o pobre, o velho e a criança mais vulneráveis morrem desidratados. Por isso, precisaremos de inovação em todas as áreas para enfrentar esse desafio, que já está batendo à nossa porta e que, cada vez mais, parece irreversível.
Saneas Online – Qual mensagem deixaria para as novas gerações de pesquisadores, especialmente mulheres?
Mariangela Hungria – As mudanças climáticas são um problema coletivo. Não existe solução individual para esse desafio. Precisamos de cooperação, diversidade de pensamento e trabalho conjunto.
Acredito que muitas características tradicionalmente associadas às mulheres, como capacidade de ouvir, pensar no coletivo e construir soluções colaborativas, serão fundamentais para enfrentar os desafios do futuro.
Tenho recebido muitas mensagens de meninas e jovens interessadas na carreira científica, e isso me emociona muito. Quando eu era criança, não tinha referências de cientistas brasileiras. Minha avó me presenteou com a biografia de Marie Curie, e aquilo me fez perceber que uma mulher também podia ser cientista.
Na minha geração, ouvi muitos “nãos” por ser mulher. Mas tive o apoio da minha avó, que sempre dizia: “Você pode ser o que quiser”. É isso que digo às meninas hoje: nunca aceitem que digam que algo não é para mulheres. Mulheres podem atuar em qualquer área.
O mais importante é seguir a vocação e trabalhar naquilo em que se acredita. Quando se trabalha com propósito e felicidade, o sucesso é consequência — seja na agricultura, no saneamento, na educação ou em qualquer outra profissão.
* 40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro
A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.
* Considerado o “Nobel da Agricultura”






