Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 9 – Criatividade e economia circular: caminhos para transformar resíduos em soluções sustentáveis

fernando codelo

Fernando Codelo Nascimento, especialista em sustentabilidade, destaca a necessidade de integrar tecnologia, criatividade e responsabilidade intergeracional no saneamento.

Com mais de quatro décadas dedicadas à engenharia química, à gestão ambiental e à formação de profissionais, o Prof. Dr. Fernando Codelo Nascimento é uma referência quando o tema envolve resíduos sólidos, economia circular e inovação aplicada à sustentabilidade. Engenheiro químico, doutor e pós-doutor em Ciências pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Universidade de São Paulo (IPEN/USP), reúne em sua trajetória atuação acadêmica, experiência em multinacionais, consultoria estratégica e auditorias em sistemas de gestão da qualidade, meio ambiente e saúde e segurança.

Na série especial em comemoração aos 40 anos da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), o especialista analisa os desafios da gestão de resíduos industriais e urbanos e destaca o papel da economia circular na transformação do setor. Especialista também em Processos Criativos, pela Creative Education Foundation (EUA), defende a criatividade como ferramenta estratégica para modernizar o saneamento e reflete também sobre a responsabilidade intergeracional e a necessidade de transformar resíduos em soluções sustentáveis para o futuro.

Confira a entrevista completa.

Saneas Online – Como a gestão de resíduos sólidos industriais se diferencia da gestão de resíduos urbanos e quais medidas devem ser adotadas pelas empresas para evitar contaminações?

Fernando Codelo – Precisamos primeiro alinhar os conceitos. Resíduo é, por definição, o que resta de qualquer processo. No caso do resíduo industrial, referimo-nos especificamente aos produtos ou materiais que restam de processos produtivos industriais. Enquanto os resíduos urbanos possuem menor complexidade química, os industriais apresentam elevada heterogeneidade e volumes concentrados. 

Um ponto crítico é a identificação do resíduo perigoso. De acordo com a ABNT NBR 10004:2024, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e a Política Estadual de Resíduos Sólidos de São Paulo, um resíduo é considerado perigoso quando apresenta ao menos uma destas características: inflamabilidade, corrosividade, patogenicidade, toxicidade ou reatividade. Para mitigar riscos, as empresas devem focar na segregação, caracterização adequada, monitoramento da rastreabilidade e gestão contínua de riscos operacionais. 

Saneas Online – Qual é o papel da economia circular diante desse desafio?

Fernando Codelo – A economia circular é uma ferramenta de excelência para a sustentabilidade, promovendo a transição do ciclo do consumismo (“do berço ao túmulo”) para o ciclo “do berço ao berço”. Ela se divide em dois pilares fundamentais: 

• Ciclo Biológico: Focado no reaproveitamento de resíduos orgânicos (frequentemente originados em coletas urbanas), destinados à geração de compostos orgânicos (adubos) e à produção de biogás. 

• Ciclo Técnico: Este é o ciclo mais complexo e vital para a indústria. Ele exige que as empresas repensem seus resíduos para encontrá-los como matéria-prima em novos processos. Os resíduos de saneamento também se enquadram aqui. O objetivo é agregar valor ao que seria descarte, diminuir custos e aumentar a vida útil dos materiais, evitando a extração de novos recursos naturais. 

Saneas Online – Como a criatividade pode impulsionar a modernização das companhias de saneamento?

Fernando Codelo: A criatividade é uma ferramenta estratégica para a análise de problemas ambientais e busca de soluções. Ela permite aplicar metodologias como Design Thinking, Brainstorming/Brainwriting e o SCAMPER (Substituir, Combinar, Adaptar, Modificar, Propor novos usos, Eliminar e Reorganizar). Essas ferramentas geram inovações incrementais que transformam a gestão de resíduos em ativos sustentáveis. No saneamento, isso é aplicado desde a redução de insumos químicos até o aproveitamento criativo de lodos e o reúso de água. 

Saneas Online – Como o conceito de sustentabilidade para 2050 orienta as decisões atuais?

Fernando Codelo – Alcançar a meta de 2050 exige o atendimento rigoroso aos requisitos legais e a aplicação da filosofia circular por meio da criatividade. O empresariado deve adotar a Pirâmide da Sustentabilidade: 1. Não gerar; 2. Minimizar; 3. Reutilizar no processo; 4. Reciclar ou aplicar em outros processos. 

Em suma, a modernização do setor de saneamento e da indústria brasileira depende de uma mudança de mentalidade. Ao integrarmos as normas técnicas (como a NBR 10004) com ferramentas de criatividade para alimentar o ciclo técnico da economia circular, deixamos de apenas gerenciar passivos para criar valor real. O compromisso com a justiça intergeracional requer que as decisões de hoje garantam a disponibilidade de recursos para o futuro, transformando resíduos em soluções permanentes.