O pesquisador Wilson Tadeu Lopes da Silva destaca caminhos adotados pela instituição, que aliam ciência aplicada, inovação tecnológica e atuação territorial para fortalecer a segurança hídrica e promover a sustentabilidade no Brasil.
Para comemorar as quatro décadas da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), iniciamos uma série especial de entrevistas com 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil. Ao longo dos próximos meses, vozes técnicas, lideranças institucionais e referências do setor compartilharão experiências, desafios e perspectivas para o presente e o futuro da área.
Para abrir a série, conversamos com o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Wilson Tadeu Lopes da Silva, referência nacional em saneamento rural e reúso de efluentes. Com trajetória marcada pela integração entre ciência, políticas públicas e capacitação técnica, ele destaca caminhos para ampliar a universalização do saneamento com soluções descentralizadas, sustentáveis, acessíveis e alinhadas às políticas públicas, integrando tratamento de esgoto, reúso agrícola, capacitação técnica e sustentabilidade ambiental. Confira na entrevista abaixo:
Saneas Online- A Embrapa tem reconhecida excelência em pesquisa aplicada. Como a instituição vem contribuindo tecnicamente para o aprimoramento de sistemas de tratamento de água e esgoto, especialmente em contextos rurais?
Wilson Tadeu Lopes da Silva – A Embrapa Instrumentação atua no saneamento básico rural desde 2001, portanto, há 25 anos, com os trabalhos do pesquisador Antônio Pereira de Novaes (falecido). No início, o foco era tecnológico, com o desenvolvimento de soluções com simplicidade construtiva e operacional, com eficiência de tratamento adequada para o que se propunha. Por estarmos inseridos no ambiente rural, o reúso agrícola de efluentes tratados surgiu como uma maneira de reciclar água e nutrientes, de maneira econômica e segura. Com o passar dos anos foram sendo agregadas outras vertentes importantes, como ferramentas de sensibilização e capacitação da população rural, para que reconheçam a importância do saneamento em suas vidas. Para isto, um bom trabalho de comunicação nos diferentes níveis, com equipe especializada, também se tornou um dos nossos pilares de atuação. A gestão dos sistemas instalados com monitoramento mínimo ainda é um problema, mas temos trabalhado para aproximar bons exemplos de modelos de gestão, principalmente, os participativos. Notamos ainda a importância da capacitação de profissionais para atuar com o saneamento rural. Além disso, desenvolvemos capacitações presenciais e virtuais, levando em consideração os aspectos tecnológicos, ambientais, sociais, de comunicação e gestão, em uma linguagem que busque nivelar o conhecimento para os diversos profissionais que irão atuar no tema (engenheiros, agrônomos, educadores ambientais, gestores públicos, profissionais da saúde, agricultores, etc). Valorizamos muito as parcerias institucionais, para atingirmos resultados mais eficientes. Com nosso trabalho e de outras instituições, percebo que hoje o saneamento rural é mais bem compreendido, apesar das dificuldades que ainda enfrentamos.
Saneas Online – Quais soluções tecnológicas desenvolvidas pela Embrapa apresentam maior potencial de integração aos sistemas públicos de saneamento, considerando critérios como eficiência operacional, viabilidade econômica e escalabilidade?
Wilson Tadeu Lopes da Silva – As tecnologias da Embrapa, hoje, são várias e desenvolvidas para residências rurais, em locais onde não é economicamente viável a construção de uma rede, tanto de distribuição de água quanto de coleta de esgoto. A mais conhecida é a Fossa Séptica Biodigestora, um conjunto simplificado de reatores anaeróbios em série, que trata o esgoto oriundo dos vasos sanitários. O Jardim Filtrante, um alagado construído, trata as águas cinzas da residência. O Clorador Embrapa é uma ferramenta muito simples que permite a cloração da água com hipoclorito de cálcio, em sistema de batelada, desde que a água possua qualidade mínima para tal, de acordo com a Portaria 888 do Ministério da Saúde. Nos aspectos do reúso agrícola desenvolvemos a ferramenta digital Agro-Efluente, para orientação da aplicação agrícola segura de efluentes de esgoto tratado; e o sistema denominado de Jardim Aquícola, uma wetland para reúso de água em tanques escavados de produção de peixes e, assim, poupa-se água dos mananciais para outros usos e preserva-se a qualidade ambiental. Todas essas tecnologias foram desenvolvidas para se tornarem ferramentas de políticas públicas, pois são de fácil replicação, e o conhecimento gerado está disponibilizado gratuitamente. As tecnologias da Embrapa foram desenvolvidas para áreas onde os números do saneamento básico são piores, que são as residências isoladas.
Saneas Online – De que forma as pesquisas em reúso de efluentes tratados podem apoiar as companhias estaduais na ampliação da segurança hídrica e na redução da pressão sobre mananciais?
Wilson Tadeu Lopes da Silva – Os benefícios do saneamento básico rural não são óbvios para uma população que desde sempre viveu sem esses benefícios. É uma população que também está acostumada a “dar um jeito” com os seus dejetos, seja com a instalação de fossas rudimentares, ou descarte direto em corpos d’água. Apesar de inadequadas, devemos ter em mente que essas “soluções” não dependem de outros e que, para muitos, já são adequadas. Assim, são necessárias estratégias para fazer com que a população perceba ganhos ao adotar uma tecnologia de tratamento de esgoto, por exemplo. Uma das ações, a mais importante a meu ver, é fazer a ligação entre doenças e a falta de saneamento, principalmente, para o público feminino, mais atento aos aspectos do bem-estar familiar. Outro aspecto é o reúso. O Efluente de Esgoto Tratado (EET) pela Fossa Séptica Biodigestora é rico em nitrogênio e, em estudos realizados por nós e já publicados, mostra-se claramente o potencial de substituição de fertilizantes nitrogenados pelo uso controlado do EET. Já o efluente tratado pelo Jardim Filtrante é pobre em nutrientes e, portanto, tem característica de água de irrigação sem efeito fertilizante. Claro que o uso deve ser feito segundo recomendações, para evitar processos de degradação do solo, principalmente, por efeitos de salinização e sodificação, bem como contaminação microbiológica de pessoas, animais e alimentos pelo contato direto ou indireto com o EET. Como o Brasil não tem normativa para reúso agrícola de efluentes tratados, seguimos recomendações de um guia da Organização Mundial da Saúde para minimizar efeitos deletérios. Assim, o reúso possibilita ganhos por dois lados: o primeiro, mais óbvio, é diminuir a retirada de água de corpos d’água naturais e, a segundo, é que evita que efluentes relativamente ricos em nitrogênio sejam descartados na natureza, com efeitos deletérios, como a geração de nitrato em lençois freáticos, por exemplo.
Saneas Online – A gestão de resíduos orgânicos e a produção de biogás são temas estratégicos para o setor. Que experiências da Embrapa demonstram viabilidade técnica e ambiental na integração entre saneamento e geração de energia?
Wilson Tadeu Lopes da Silva – A Embrapa possui diversos estudos no uso de sistemas anaeróbios para tratamento de excreta animal em sistemas de confinamento, principalmente, suíno e bovino. O uso de biodigestores no meio rural inclusive fez parte do Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão deCarbono) e faz agora do Plano ABC+, como forma de minimizar a liberação de gases do efeito estufa na atmosfera, principalmente, o metano. Em boa parte das propriedades que possuem biodigestores o biogás gerado é queimado apenas para transformar o metano em dióxido de carbono, sem aproveitamento energético. Quando o biogás é utilizado energeticamente, muitas vezes ocorre em sistemas de motogeradores, com menor eficiência de conversão da energia térmica em elétrica (em comparação aos geradores com caldeira e turbina a vapor), ou a queima em fogões ou queimadores para geração de calor. É preciso pensar que para valer a pena na coleta do biogás, é preciso haver escala e, portanto, na nossa visão, sistemas individualizados de tratamento de esgoto em escala unifamiliar com coleta do biogás seriam caros e com pouquíssima produção. Já em sistemas instalados para o tratamento de esgoto de pequenas comunidades e distritos pode ser algo que valha a pena, a depender de estudos técnicos.
Saneas Online – Como as tecnologias descentralizadas desenvolvidas pela instituição podem contribuir para a universalização do saneamento em municípios de pequeno porte, respeitando as exigências do novo marco legal?
Wilson Tadeu Lopes da Silva – No geral, quanto menor o município, maior é proporcionalmente a sua população rural. A lei 14026/2020, estabelece as metas de 99% da população com acesso à água tratada e 90% com coleta e tratamento do esgoto gerado. Independentemente se chegaremos a esses números em 2033, fato é que só serão atingidos se a população rural for atendida. Claro que a população não urbana está distribuída desde áreas periurbanas próximas aos núcleos urbanos, em distritos e pequenos aglomerados, em microagregados (aproximadamente 4 a 20 residências) e residências isoladas (1 a 3 casas). Os sistemas desenvolvidos por nós são para este último caso. Dentro de uma lógica de política pública bem estruturada, certamente as tecnologias da Embrapa podem contribuir muito para a universalização. Claro que, junto a isso, deve estar atrelado um bom processo de sensibilização e capacitação dos usuários e um bom sistema de monitoramento e gestão, principalmente, no formato em que a comunidade participe ativamente. Quero reforçar que os beneficiários não podem ser os únicos responsáveis pela operação e manutenção dos sistemas. Se não houver um acompanhamento, a tendência é que as pessoas com o tempo, na primeira dificuldade, abandonem os sistemas construídos e voltem a adotar soluções precárias.
Saneas Online – Quais são os principais desafios para transformar conhecimento científico em soluções operacionais adotadas pelas companhias de saneamento, e como superar as barreiras regulatórias e institucionais?
Wilson Tadeu Lopes da Silva – O primeiro grande desafio é convencer gestores e legisladores que o saneamento rural não é só uma questão de engenharia. Um sinal dessa visão distorcida é que, em muitas prefeituras e estados, o saneamento está ligado aos setores/secretarias de obras. Para mudar isso, é necessária uma comunicação bem elaborada que apresente o saneamento rural com informações em linguagens adequadas para os diversos públicos. Um grande gargalo está no fato de que poucos profissionais de saneamento conhecem efetivamente o rural brasileiro, nas suas diferentes nuances e, portanto, é necessário um programa de capacitação estruturado. Outro ponto muito importante é que o saneamento rural é pouco ou nada tratado nos planos municipais/regionais de saneamento básico e, para um correto diagnóstico, são necessários números confiáveis. Finalmente, as políticas públicas devem ser efetivas na solução do problema que está posto. Não haverá política pública efetiva que não seja baseada em um bom diagnóstico. Assim, é fundamental que essa informação seja levantada pelos municípios e que isso conste efetivamente no Sinisa (Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico). Finalmente, claro, as tecnologias desenvolvidas devem efetivamente resolver o problema para os quais foram projetadas, bem como sejam simples de construir, operar e manter. Parece difícil conciliar tudo, mas a nossa experiência mostra que é possível, desde que as equipes/instituições envolvidas estejam devidamente preparadas e motivadas, dentro de um modelo de governança bem definido.
Saneas Online – Considerando as metas de sustentabilidade, descarbonização e adaptação às mudanças climáticas, quais linhas de pesquisa deveriam ser priorizadas para fortalecer a resiliência dos sistemas de saneamento no Brasil?
Wilson Tadeu Lopes da Silva – Adaptação e resiliência são palavras-chave nesses novos tempos de emergência climática, sem nunca perder de vista as ações de mitigação. Creio que a primeira ação de pesquisa, sem dúvida, seria relacionada ao reúso agrícola seguro de efluentes tratados. Não há como aumentar a eficiência do uso da água e de nutrientes minerais sem pensarmos em reúso e a agricultura será a maior demandante. Do ponto de vista agrícola, o reúso dependerá de vários aspectos: tipo de cultura, tipo de solo, características da paisagem, qualidade mínima do líquido para o reúso proposto e, finalmente, a definição do tipo de tratamento e respectivas operações unitárias para alcançar essa qualidade de maneira viável, tudo isso dentro de uma visão de segurança humana e ambiental. São desafios que não são somente da engenharia sanitária ou da agronomia, mas envolvem uma série de conhecimentos de ciências básicas e econômicas. Já fazemos isso em pequena escala, com as tecnologias da Embrapa para o saneamento rural, mas julgo que o salto deve ser maior. Acredito no estabelecimento de uma rede de pesquisa com diversos profissionais e instituições para olhar esse tema de maneira pragmática, transdisciplinar e que, de alguma maneira, possa quebrar o preconceito que existe muito fortemente no Brasil, relativo ao reúso direto de efluentes de esgoto tratado. Outro ponto que precisa ser melhorado e vale a pena investir na ciência está no desenvolvimento de ferramentas analíticas mais simples para avaliação (laboratorial, in situ e remoto) da qualidade, tanto de corpos d’água quanto de efluentes e consequentes modelagens e simulações matemática, com os dados obtidos para melhor avaliação do impacto ambiental da atividade humana sobre esses corpos e eliminação de práticas e processos que levem à degradação. Uma coisa é certa: estamos atrasados nestes estudos e os efeitos, tanto na quantidade quanto na qualidade da água disponível, são evidentes. O custo da inação é caro e, infelizmente, cada vez mais veremos conflitos pelo uso da água no Brasil e no mundo.






