Tadeu Siqueira, coordenador de Integração do CBioClima, analisa os impactos das mudanças climáticas sobre rios, lagos e reservatórios e defende a aproximação entre ciência, saneamento e políticas públicas para enfrentar os desafios do século XXI.
Ao celebrar 40 anos de história, a Associação de Engenheiros da Sabesp, a AESabesp, reúne profissionais e especialistas que contribuem para a construção de um saneamento mais eficiente, sustentável e preparado para os desafios do futuro.
Professor da Unesp de Rio Claro (Universidade Estadual Paulista) e coordenador de Integração do CBioClima (Centro de Pesquisas em Biodiversidade e Mudanças Climáticas), Tadeu Siqueira é uma das principais referências brasileiras em ecologia aquática e biodiversidade. Na entrevista, ele analisa como as mudanças climáticas estão transformando os ecossistemas aquáticos, ampliando riscos para a segurança hídrica, a biodiversidade e o abastecimento das cidades.
Ao refletir sobre os avanços e desafios das últimas décadas, destaca a importância de integrar saneamento, conservação ambiental e conhecimento científico, reforçando que a adaptação a um clima cada vez mais extremo exigirá planejamento de longo prazo, investimentos contínuos e decisões públicas fundamentadas na ciência.
Confira a entrevista na íntegra.
Saneas Online – Os eventos extremos têm se tornado mais frequentes e intensos em todo o país. Como as mudanças climáticas estão afetando os ecossistemas aquáticos brasileiros e quais são os principais riscos para a segurança hídrica da população?
Tadeu Siqueira – Num artigo que publicamos recentemente, encontramos que os ecossistemas aquáticos estão sendo reorganizados por eventos climáticos extremos que se tornam mais frequentes, intensos e, principalmente, compostos. Isso tem alterado a disponibilidade de água, a qualidade da água e a própria estrutura dos ecossistemas aquáticos. O resultado é perda de biodiversidade, colapso local de populações e maior instabilidade ecológica.
Os riscos para a segurança hídrica são diretos. Grande parte do abastecimento urbano depende de água superficial e, quando rios são afetados por seca, turbidez extrema, proliferação de algas ou poluição concentrada, os custos de tratamento aumentam e o abastecimento fica mais vulnerável. A geração hidrelétrica também sofre, como mostram crises recentes. Soma-se a isso o impacto sobre a pesca artesanal, a segurança alimentar e o modo de vida de comunidades ribeirinhas e indígenas, para as quais os rios têm valor ecológico, cultural e identitário.
O principal risco sistêmico é que a infraestrutura hídrica brasileira ainda foi pensada sob a lógica da estacionariedade, isto é, como se o clima do passado ainda fosse um bom guia para o futuro. Essa premissa já não se sustenta. Se não atualizarmos projetos, planos de bacia, barragens, drenagem urbana e sistemas de abastecimento para um clima mais extremo e menos previsível, continuaremos produzindo obras e políticas subdimensionadas.
Saneas Online – Casos como a seca histórica na Amazônia, que provocou a morte de centenas de botos em 2023, chamaram a atenção do mundo. O que episódios como esse nos ensinam sobre a vulnerabilidade dos ambientes aquáticos e a urgência de ações de adaptação?
Tadeu Siqueira – O caso dos botos mortos nos lagos da Amazônia foi um evento sentinela; não porque fosse totalmente inesperado, mas porque mostrou um limiar que havia sido cruzado. Ele ensina que ecossistemas aquáticos podem entrar em colapso quando vários estressores atuam ao mesmo tempo. Na seca de 2023, houve aquecimento extremo da água (em alguns lagos a temperatura atingiu 40 graus), forte insolação, ausência prolongada de nuvens, baixos níveis d’água e condições físicas muito adversas. Ou seja, a combinação entre seca extrema e onda de calor criou um cenário letal. Muitas pessoas foram afetadas diretamente também, pois o transporte, a pesca e outras atividades que dependem da boa condição dos rios e lagos foram afetadas.
Esse tipo de episódio deixa claro que a vulnerabilidade não está apenas na intensidade do evento, mas na forma como os extremos se somam. Em muitos sistemas, a recuperação também é lenta ou incompleta. Por exemplo, a “Seca do Milênio” na Austrália (1997-2009) deixou sinais nas bacias hidrográficas que ainda podem ser detectados hoje. Isso significa que adaptação não pode ser pensada só como resposta emergencial; ela precisa garantir capacidade de recuperação, conectividade entre habitats, proteção de refúgios e manutenção da heterogeneidade ecológica.
No caso amazônico, a tendência de aquecimento dos lagos e a recorrência de secas extremas indicam que episódios como esse tendem a se tornar mais frequentes. Quanto mais degradados estiverem os ecossistemas, menor será sua resiliência. A mensagem central é simples: preservar a integridade dos nossos ecossistemas hoje é uma forma concreta de reduzir o risco amanhã.
Saneas Online – Ao longo dos 40 anos da AESabesp, houve avanços significativos no saneamento e na gestão dos recursos hídricos. Na sua avaliação, neste período, quais conquistas mais contribuíram para a proteção dos ecossistemas aquáticos e quais desafios permanecem?
Tadeu Siqueira – Há conquistas importantes nas últimas décadas. A ampliação da coleta e do tratamento de esgoto, o avanço da engenharia sanitária e a formação de quadros técnicos especializados melhoraram muito a infraestrutura ambiental da Região Metropolitana de São Paulo e de outras áreas urbanas. Esse patrimônio institucional deve ser reconhecido.
Mas os dados mostram que os desafios continuam enormes. No caso do rio Tietê, houve investimentos expressivos e avanços parciais, mas o rio ainda mantém trechos de quase 200 km com água imprópria para usos múltiplos, e os ganhos obtidos podem regredir quando o investimento oscila. Isso revela um problema estrutural: a proteção de rios não pode depender do ciclo político de cada governo. Por exemplo, em 1993, o governo prometeu a limpeza do rio para 2005. Em 2004, prometeu peixes até 2010. Em 2012, prometeu coleta de 94% do esgoto até 2015. Em 2014, prometeu a despoluição até 2019. O Tietê, até a década de 1950, abrigava competições a nado e atividades de pesca. Hoje, em 2026, apesar de décadas de investimentos que reduziram a mancha de poluição e expandiram o saneamento, ainda estamos longe de ver o rio plenamente vivo na capital, enfrentando as etapas finais e mais complexas de uma recuperação que a própria ciência indica poder levar décadas adicionais.
Os exemplos internacionais mostram que rios degradados podem ser recuperados quando há continuidade, regulação e prioridade política. O rio Tâmisa (no Reino Unido) e o rio Cheonggyecheon (na Coréia do Sul) mostram que a restauração fluvial é possível, inclusive em grandes centros urbanos. O Brasil, porém, ainda trata muitos rios como espaços residuais, e isso é inaceitável no século XXI. Não é um problema técnico. A engenharia para despoluir rios existe, é conhecida, e foi aplicada com sucesso em dezenas de cidades ao redor do mundo. É um problema de prioridade política e de continuidade de investimento. Enquanto governos em Londres, Seul, Berlim, Tóquio e Sydney escolheram transformar seus rios em patrimônio ecológico e espaço público de qualidade, o Brasil escolheu repetidamente a descontinuidade.
Os principais desafios que permanecem são institucionais e políticos: criar mecanismos estáveis de financiamento, tornar metas legalmente exigíveis, ampliar a ideia de sucesso para além do tratamento de esgoto e integrar saneamento, biodiversidade, mata ciliar, conectividade e planícies de inundação. Um rio limpo precisa ser entendido como componente essencial das cidades, não como luxo ambiental.
Saneas Online – Como coordenador de Integração do CBioClima, o senhor acompanha a produção científica sobre clima e biodiversidade. O que precisa ser feito para aproximar ainda mais a ciência das decisões públicas e das estratégias do setor de saneamento diante da emergência climática?
Tadeu Siqueira – O primeiro passo é reduzir a distância entre ciência e decisão pública. Isso exige mais do que publicar artigos (que continua sendo essencial); exige tradução qualificada do conhecimento para gestores, legisladores e sociedade. Iniciativas como policy briefs, algo que o CBioClima está desenvolvendo, são importantes porque transformam resultados científicos em informação acionável, sem perder rigor.
Também é necessário fortalecer a interface política. Cientistas e instituições precisam ocupar melhor o espaço onde as tomadas de decisão acontecem, dialogando com o legislativo, assessorias técnicas e órgãos de governo. Sem representação qualificada nas decisões, o conhecimento científico entra pouco na formulação de políticas.
Por fim, é preciso criar arquitetura institucional que sobreviva às mudanças de governo. A experiência mostra que muitas parcerias entre academia e poder público falham não por falta de capacidade técnica, mas por falta de compromisso institucional. Se queremos proteger rios e enfrentar a emergência climática, precisamos de mecanismos que tornem a cooperação estável, obrigatória e transparente.
40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro
A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.






