Marcel Sanches, presidente nacional da ABES, analisa os desafios para alcançar a universalização até 2033, o papel do saneamento diante das mudanças climáticas e a importância das entidades técnicas na formação de profissionais e no fortalecimento das políticas públicas do setor.
Na série especial em comemoração aos 40 anos da Associação dos Engenheoros da Sabesp (AESabesp), o presidente nacional da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Marcel Sanches, compartilha sua visão sobre os principais desafios e oportunidades do saneamento brasileiro diante das metas de universalização previstas para 2033. Ao longo desta conversa, o especialista destaca a importância do planejamento de longo prazo, da segurança regulatória, da boa engenharia e da capacidade de transformar investimentos em resultados concretos para a população.
Marcel Sanches reforça também a relevância de entidades como a AESabesp e a ABES na articulação técnica e institucional do setor, na valorização dos profissionais e no fortalecimento de políticas públicas mais consistentes para o país.
Confira a entrevista na íntegra:
Saneas Online – O Brasil assumiu o compromisso de avançar rumo à universalização do saneamento até 2033. Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios para que essa meta seja alcançada e quais caminhos o setor precisa priorizar nos próximos anos?
Marcel Sanches – O maior desafio do Brasil não é apenas ampliar a infraestrutura, mas transformar planejamento, capacidade de investimento e boa engenharia em entrega efetiva para a população. A universalização exige muito mais do que obras: exige visão de longo prazo, projetos consistentes, segurança jurídica e regulatória, capacidade de execução, inovação nos modelos de contratação e foco permanente na população que mais precisa.
Nós temos hoje um marco legal que trouxe ambição, metas claras e maior mobilização de investimentos. Mas para que essa agenda se concretize, será fundamental garantir que os investimentos sejam reconhecidos como prudentes, que haja estabilidade regulatória, que os contratos sejam cumpridos e que os projetos sejam tecnicamente bem estruturados. Não existe universalização sustentável sem planejamento robusto, sem engenharia de qualidade e sem equilíbrio econômico-financeiro.
Outro ponto central é reconhecer a diversidade do Brasil. Universalizar o saneamento em grandes centros urbanos é um desafio; universalizar em áreas rurais, comunidades isoladas, assentamentos precários e regiões de maior vulnerabilidade social é outro desafio ainda mais complexo. Por isso, precisamos combinar soluções convencionais com soluções descentralizadas, tecnologias apropriadas, modelos flexíveis e políticas públicas integradas.
Também é indispensável enfrentar a agenda de perdas de água, eficiência operacional, reúso, segurança hídrica e resiliência climática. Universalizar não significa apenas conectar redes; significa entregar serviço de qualidade, contínuo, seguro, sustentável e acessível. O saneamento precisa ser tratado como política de Estado, não como pauta de governo. Se conseguirmos alinhar planejamento, regulação, investimento, inovação e compromisso social, o Brasil terá condições reais de dar um salto histórico até 2033.
Saneas Online – O saneamento passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico nas discussões sobre saúde pública, meio ambiente e mudanças climáticas. Como a ABES enxerga o papel do setor diante dos desafios climáticos e da necessidade de construir cidades mais resilientes e sustentáveis?
Marcel Sanches – A ABES entende que o saneamento está no centro da agenda climática e da construção das cidades do futuro. Água, esgoto, drenagem e resíduos sólidos não podem mais ser vistos apenas como serviços essenciais. Eles são infraestrutura estratégica de saúde pública, segurança hídrica, adaptação climática, proteção ambiental e desenvolvimento econômico.
Os eventos extremos já fazem parte da realidade brasileira. Secas prolongadas, chuvas intensas, enchentes, deslizamentos e estresse hídrico impactam diretamente a vida das pessoas e colocam enorme pressão sobre os sistemas urbanos. Nesse contexto, o saneamento é uma das principais linhas de defesa das cidades. Uma cidade resiliente precisa ter abastecimento de água seguro, esgotamento sanitário adequado, drenagem eficiente, gestão responsável de resíduos, proteção de corpos hídricos e capacidade de resposta a crises.
Também precisamos avançar em uma nova visão de circularidade. As estações de tratamento de esgoto, por exemplo, não devem ser vistas apenas como unidades de tratamento, mas como plataformas ambientais capazes de gerar água de reúso, biogás, energia, biossólidos e soluções de economia circular. O lodo, o biogás, os nutrientes e a água de reúso precisam ser tratados como recursos, não como passivos.
A ABES tem defendido que o saneamento seja incorporado de forma mais estratégica às políticas climáticas, urbanas e ambientais. Não há agenda de adaptação climática sem saneamento. E não haverá cidades sustentáveis se continuarmos tratando água, esgoto, drenagem e resíduos de forma fragmentada. O futuro exige integração, planejamento territorial, inovação e uma visão sistêmica do ciclo urbano da água.
Saneas Online – O setor de saneamento vive um momento de transformação, com novas demandas relacionadas à inovação, eficiência operacional, sustentabilidade e inclusão social. Que perfil de profissional será necessário para enfrentar os desafios do futuro e como as entidades do setor podem contribuir para essa formação?
Marcel Sanches – O profissional do futuro no saneamento precisará ser, ao mesmo tempo, técnico, inovador, colaborativo e capaz de compreender a complexidade do setor. A boa engenharia continuará sendo essencial, mas o novo profissional precisará dominar temas como regulação, planejamento de longo prazo, financiamento, sustentabilidade, governança, dados, transformação digital, eficiência operacional, gestão de riscos, mudanças climáticas e impacto social.
Estamos diante de uma agenda que exige profissionais capazes de dialogar com diferentes mundos: engenharia, meio ambiente, saúde pública, economia, direito regulatório, tecnologia, comunicação e gestão pública. A universalização não será feita apenas com tubos, bombas e estações, será feita com inteligência, integração institucional, capacidade de liderança e compromisso com resultados.
Também será cada vez mais importante formar profissionais com visão de dono e responsabilidade pública. O saneamento lida com investimentos bilionários, contratos de longo prazo e impactos diretos sobre a vida da população. Por isso, precisamos de pessoas preparadas para tomar decisões baseadas em dados, mas também orientadas por propósito. O setor precisa de líderes que saibam executar, inovar e construir consensos.
As entidades como a ABES e a AESabesp têm papel decisivo nessa formação. Elas criam espaços de troca técnica, capacitação, atualização profissional, valorização da engenharia e integração entre gerações. Também aproximam academia, operadores, reguladores, empresas, setor público e sociedade. Em um momento de transformação tão profunda, as entidades precisam ser pontes: entre conhecimento e prática, entre inovação e aplicação, entre juventude e experiência, entre política pública e entrega concreta.
Formar o profissional do futuro é uma das missões mais importantes do nosso setor. Porque a universalização dependerá de investimento, sim, mas dependerá sobretudo de gente preparada, comprometida e capaz de liderar essa transformação.
Saneas Online – Ao longo das últimas décadas, entidades como a AESabesp e a ABES tiveram papel importante na articulação técnica, institucional e na valorização dos profissionais do saneamento. Como o senhor avalia a contribuição dessas organizações para o fortalecimento do setor e para a construção de políticas públicas mais consistentes no Brasil?
Marcel Sanches – A AESabesp e a ABES são patrimônios técnicos, institucionais e humanos do saneamento brasileiro. Ao longo das últimas décadas, essas entidades ajudaram a formar profissionais, qualificar debates, disseminar conhecimento, defender boas práticas e construir consensos em momentos decisivos para o setor. Elas representam algo muito valioso: a inteligência coletiva do saneamento.
O saneamento brasileiro sempre avançou quando conseguiu unir conhecimento técnico, compromisso público e articulação institucional. E as entidades tiveram papel fundamental nesse processo. Elas deram voz aos profissionais, aproximaram empresas, universidades, reguladores, gestores públicos, operadores e sociedade civil. Também contribuíram para que políticas públicas fossem construídas com base em evidências, experiência acumulada e visão de longo prazo.
A AESabesp, em especial, tem uma história muito vinculada à valorização dos profissionais da Sabesp e à construção de um ambiente técnico de excelência. Ao completar 40 anos, reafirma sua importância como espaço de integração, memória, inovação e desenvolvimento profissional. É uma entidade que ajudou a preservar e fortalecer uma cultura técnica que é reconhecida em todo o Brasil.
A ABES, por sua vez, tem uma dimensão nacional e exerce um papel estratégico na defesa do saneamento como agenda de desenvolvimento, saúde, inclusão social e sustentabilidade. Ao reunir profissionais de todo o país, a ABES contribui para construir pontes entre diferentes realidades regionais e para fortalecer uma visão nacional do setor.
Em um momento de grandes transformações, o papel dessas entidades se torna ainda mais relevante. Precisamos de espaços independentes, plurais e tecnicamente qualificados para debater os rumos do saneamento. Precisamos valorizar os profissionais, formar novas lideranças, defender a boa engenharia e contribuir para políticas públicas consistentes. O futuro do saneamento brasileiro será construído com investimento e tecnologia, mas também com diálogo, conhecimento e cooperação. E é exatamente isso que entidades como a AESabesp e a ABES representam.
A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.






