Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 18 – Planejamento, eficiência hídrica e cooperação regional: caminhos para o saneamento do futuro em São Paulo

Juliana Collaco

Juliana Collaço, diretora de Serviços de Água e Esgoto da Semil, destaca os desafios da universalização, a importância da gestão eficiente da água e o papel da cooperação entre municípios para fortalecer a resiliência climática e ampliar o acesso ao saneamento no estado de SP.

A universalização do saneamento em São Paulo passa por desafios que vão além da ampliação da infraestrutura. Questões como a inclusão de populações vulneráveis, a sustentabilidade econômico-financeira dos serviços, a adaptação às mudanças climáticas e o fortalecimento da cooperação entre municípios estão no centro das discussões que definirão o futuro do setor nas próximas décadas.

Nesta entrevista especial da Série Saneas 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação, Juliana Fontes Lima Collaço, diretora de Serviços de Água e Esgoto da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), fala sobre os desafios e avanços da política estadual de saneamento. 

Com experiência nas áreas de saneamento, regulação ambiental e gestão pública, Juliana destaca o papel da eficiência hídrica e do reuso da água para fortalecer a segurança hídrica no estado. Nesta entrevista, ela aborda também as estratégias que vêm sendo adotadas para apoiar os municípios na universalização dos serviços, ampliar a cooperação regional e construir sistemas mais resilientes diante das mudanças climáticas. Confira:

Saneas Online – Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios para a implementação da Política Estadual de Saneamento e para a universalização dos serviços em São Paulo?

Juliana Collaço – O Estado de São Paulo, quando comparado à realidade brasileira, tem excelentes indicadores de atendimento nos serviços de abastecimento de água e coleta de esgoto na área urbana e está rumo à universalização, entretanto, a heterogeneidade da distribuição espacial da população exige abordagens distintas em termos de políticas públicas – de um lado temos 60% da população paulista concentrada nas regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas, e 15% da população distribuída em 487 municípios com menos de 50 mil habitantes.

Nesse cenário, a implementação da política estadual de saneamento exige escalas diferenciadas de articulação com desafios significativos, porém plenamente enfrentáveis com planejamento, coordenação e inovação.

O primeiro desafio é avançar na expansão dos serviços de saneamento com foco nas populações vulneráveis situadas nas áreas rurais e urbanas informais, em termos de estratégia, a pactuação do contrato da URAE1 inova ao ampliar a área atendível à totalidade do território e assegurar a inclusão de áreas rurais e núcleos urbanos informais para o atendimento. 

Um segundo desafio está relacionado à necessidade de garantir a sustentabilidade econômico-financeira dos serviços de saneamento e de promover o avanço mais estruturado do esgotamento sanitário em termos de coleta e eficiência no tratamento, que ainda apresenta os maiores déficits. 

Temos municípios com diferentes níveis de capacidade técnica e institucional, o que exige um esforço coordenado do Estado para apoiar o planejamento e a estruturação de projetos. Além disso, a universalização demanda investimentos elevados, sendo fundamental equilibrar tarifas acessíveis à capacidade de pagamento da população com a viabilidade dos serviços. Nesse aspecto o Marco Legal do Saneamento preconiza, como um princípio fundamental, a prestação regionalizada dos serviços de saneamento com vistas à geração de ganhos de escala e à garantia da universalização e da viabilidade técnica e econômico-financeira dos serviços (Lei Art. 2°, inciso XVI da Lei 11445/2007 alterada pela Lei 14.026/2020), e a Semil vem trabalhando com essa premissa. Um passo importante foi a recente alteração da lei de criação das Unidades Regionais de Saneamento Básico (URAEs) – Lei nº 17.383, de 5 de julho de 2021, alterada pela Lei nº 18.436, de 25 de março de 2026, que reconfigura a prestação dos serviços de saneamento em duas URAEs (1 e 2) e permite a subdivisão destas segundo critérios técnicos com coerência hidrográfica do agrupamento, considerando as bacias hidrográficas ou Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos – UGRHI e o compartilhamento de infraestruturas dos serviços de drenagem e manejo de águas pluviais urbanas.

Também estamos avançando na integração entre saneamento e a agenda climática. Os eventos extremos — tanto secas quanto chuvas intensas — estão cada vez mais frequentes, exigindo infraestruturas mais robustas e sistemas adaptáveis e integrados à gestão de recursos hídricos. Precisamos projetar sistemas preparados para cenários de maior variabilidade hidrológica, com soluções que integrem infraestrutura tradicional e soluções baseadas na natureza, e a Semil tem atuado em estudos e instrumentos de incentivo a tais práticas, bem como em investimentos e obras de infraestrutura resiliente. 

Saneas Online – A Diretoria de Serviços de Água e Esgoto tem entre suas atribuições promover o uso racional da água e o aumento da eficiência dos sistemas. Como essas ações podem contribuir para tornar o estado mais resiliente diante das crises hídricas e dos eventos climáticos extremos?

Juliana Collaço – Nesse contexto, a promoção do uso racional da água e o aumento da eficiência dos sistemas são fundamentais. Reduzir perdas, melhorar a gestão da demanda e ampliar o reuso de água são medidas que aumentam a segurança hídrica sem necessariamente demandar novas captações. Já a gestão eficiente da demanda, com incentivo ao consumo consciente e ao reuso, reduz a pressão sobre os mananciais. Além disso, sistemas mais eficientes consomem menos energia e são mais sustentáveis do ponto de vista ambiental. São ações que tornam o sistema mais eficiente, mais sustentável e mais resiliente, e são premissas no Plano Estadual de Saneamento Básico de São Paulo (PESB/SP) e no Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC). O PEARC reforça a importância de diversificar fontes, ampliar o reuso e integrar o planejamento de saneamento com a gestão de recursos hídricos — tudo isso contribui para tornar o sistema mais preparado para períodos de escassez e eventos extremos.

Saneas Online – Muitos municípios ainda enfrentam dificuldades técnicas e financeiras para avançar no saneamento. Como a Semil pretende fortalecer a cooperação entre municípios e ampliar o apoio técnico e institucional para acelerar a implementação das políticas públicas do setor?

Juliana Collaço – A Semil tem atuado de forma estruturada para fortalecer a cooperação entre municípios e ampliar o apoio técnico e institucional. A atuação da Semil tem sido estruturada em torno de três pilares.

O primeiro é a regionalização, por meio da criação das URAEs, como a URAE 2, que permitem ganhos de escala, maior eficiência e maior atratividade para investimentos.

O segundo pilar é o apoio técnico aos municípios, no âmbito do programa UniversalizaSP, com a disponibilização de estudos, modelos de contratação, capacitação e assistência direta, especialmente para aqueles com menor capacidade institucional.

E o terceiro é o fortalecimento da governança, com maior articulação entre Estado, municípios, agências reguladoras e comitês de bacia, além do monitoramento contínuo dos contratos vigentes e das metas de universalização. 

Estamos avançando de forma consistente, com uma estratégia integrada que alia eficiência, planejamento regional e adaptação às mudanças climáticas.

A DSAE entende que universalizar o saneamento em São Paulo não é apenas uma meta legal — é uma condição essencial para a saúde pública, a qualidade ambiental e para o desenvolvimento no território paulista.

40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro

A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.