Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 20 – Preservar a floresta e investir no ciclo sustentável do saneamento: duas pautas que não se separam

Mario Mantovani

Mario Mantovani, diretor de Relações Institucionais da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Anamma) e presidente da Fundação Florestal, destaca o papel da mobilização social na história do ambientalismo, a importância da conservação dos biomas para a segurança hídrica e a urgência de o saneamento assumir o protagonismo na adaptação às mudanças climáticas. 

A universalização do saneamento e a segurança hídrica no Brasil exigem uma visão integrada que conecta a proteção das florestas à garantia da água na torneira. A urgência da crise climática, o fortalecimento da governança nos municípios, a preservação dos mananciais e a superação das dívidas históricas com o saneamento rural e com populações tradicionais estão no centro dos debates que definem o futuro do setor.

Nesta entrevista especial da Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação, Mario Mantovani resgata marcos históricos da articulação entre o movimento ecológico e a engenharia sanitária e analisa os caminhos para o desenvolvimento sustentável.

Geógrafo, ambientalista e referência em recursos hídricos, Mantovani atuou por mais de três décadas na Fundação SOS Mata Atlântica, na qual liderou a maior campanha de mobilização popular pela despoluição do Rio Tietê e foi peça-chave na aprovação da Lei da Mata Atlântica. Atualmente, na liderança da Anamma e da Fundação Florestal, ele defende nesta entrevista a necessidade de uma ética socioambiental renovada e o protagonismo dos governos locais para que o saneamento se consolide como o maior instrumento de saúde pública e resiliência do país. Confira!

Saneas Online – A AESabesp completa 40 anos debatendo a evolução técnica do setor, enquanto você acompanha e molda a história do ativismo ambiental no país há décadas. Olhando para trás, como você avalia a evolução da sinergia entre a engenharia sanitária e o movimento ecológico? Em que momento essas duas agendas finalmente entenderam que são inseparáveis? 

Mario Mantovani – Estar à frente de entidades como a Fundação SOS Mata Atlântica e a Fundação Florestal, que completam quatro décadas de atuação, nos mostra que vivemos um marco muito especial. Esse nascimento simultâneo, que inclui a própria AESabesp, não foi coincidência: fomos todos frutos diretos do processo de redemocratização do país. A abertura política trouxe para o centro do debate temas fundamentais que haviam ficado sombreados durante a ditadura militar, impulsionando um grande movimento social.

Embora muitas pessoas associem minha trajetória estritamente às florestas, minha origem e atuação sempre estiveram profundamente ligadas à água. E falar de água é, inevitavelmente, falar de saneamento em todas as suas frentes, como abastecimento, drenagem e conservação. Afinal, para produzir água, é preciso ter floresta.

Naquela época, a água se tornou o grande catalisador de diversas organizações que surgiram, justamente por sua ligação direta com a saúde pública, lembrando que muitas das internações no Brasil decorriam de doenças de veiculação hídrica. Com o tempo, cada entidade buscou sua especialização. A SOS Mata Atlântica, por exemplo, voltou-se à proteção do bioma, enquanto outras focaram no combate à poluição dos rios. No início dos anos 1980, a urgência ambiental estava dividida entre a qualidade da água e a poluição atmosférica, simbolizada pelos emblemáticos “relógios” da Cetesb que mediam o ar em cidades altamente industrializadas. Mas o saneamento sempre esteve ali, caminhando lado a lado, ora com mais, ora com menos visibilidade.

Ao longo dessa linha do tempo, a articulação da sociedade civil só se fortaleceu. Tive o privilégio de participar de momentos históricos, como o Fórum Mundial da Água, a criação do Consórcio Intermunicipal da Bacia do Rio Jacaré-Pepira, o primeiro do gênero no país e, mais tarde, a grande mobilização pelo Rio Tietê, que considero a maior campanha já feita no Brasil em defesa de um manancial. Essa construção teve marcos legislativos decisivos, como a pioneira Lei de Águas de São Paulo, em 1991, e a posterior Lei Federal de Recursos Hídricos, em 1997. Tudo isso fervilhava em um cenário de intensa mobilização, tanto em Brasília quanto em São Paulo, onde o engajamento da sociedade e do movimento sindical, inclusive dentro da própria Sabesp, sempre foi extremamente expressivo.

Nenhum desses avanços ocorreu no vácuo. Eles foram empurrados pela mesma energia transformadora que moveu o país na época das Diretas Já. Foi essa força coletiva que garantiu, durante a Assembleia Constituinte de 1988, que um grupo mobilizado e técnico trabalhasse para inserir o saneamento no texto da nossa Constituição Federal. Unir forças pelo saneamento era o grande elo da nossa geração. As referências que temos hoje na legislação e na gestão ambiental foram consolidadas por essas mesmas pessoas que começaram a erguer essa estrutura lá atrás. E é muito recompensador ver que a nossa geração ainda está aqui para resgatar essa memória: cada linha da Constituição, da lei paulista e da legislação federal custou muita mobilização social.

Isso nos leva diretamente à questão da transversalidade. Não existe divisão entre a luta ambientalista tradicional, o “abraçar uma árvore”, e a luta por saúde pública, habitação ou educação. Todas as pautas sociais e ambientais cruzam, em algum momento, o caminho do saneamento. A água que tornamos potável e consumimos depende da floresta em pé; a conscientização sobre o uso da água exige educação ambiental, que por sua vez se conecta à educação para o saneamento. Essa agenda pode nem sempre estar explícita na superfície, mas ela é a espinha dorsal e transversal de todo o desenvolvimento sustentável.

 Saneas Online – Sua trajetória é profundamente marcada pela histórica campanha de mobilização pela despoluição do Rio Tietê nos anos 1990. Que lições fundamentais daquela época sobre engajamento da sociedade civil e pressão pública ainda precisam ser aplicadas hoje para acelerarmos a universalização do saneamento e a recuperação dos nossos corpos d’água? 

Mario Mantovani – Minha trajetória na causa ambiental já soma 50 anos; brinco que sou quase o “primeiro ongueiro aposentado” do Brasil. Comecei nessa jornada nos anos 1970, sob o impacto da Conferência de Estocolmo e de seu lema “Pensar Global, Agir Local”, que sempre teve tudo a ver com a pauta do saneamento.

Se naquela época a sociedade civil normalizava a presença do esgoto nos rios, hoje vemos uma reação muito maior. Mas a mobilização que fizemos nos anos 1990 pela despoluição do Rio Tietê teve um catalisador muito singular. O estopim de tudo foi a aparição de um jacaré nas águas do Tietê, em São Paulo. A Rádio Eldorado começou a noticiar o fato e, de forma surpreendente para uma emissora de perfil mais tradicional, aquilo desencadeou um fenômeno coletivo. As pessoas passaram a olhar para o rio e a encarar uma realidade incômoda: aquilo não podia mais ser chamado de rio. O mau cheiro, as doenças e as contaminações nas áreas vulneráveis escancararam o absurdo da nossa situação sanitária. Na época, chegamos a promover encontros entre repórteres no Rio Tâmisa, em Londres, e repórteres aqui, mostrando a diferença. Ao mesmo tempo, o Tietê despertava uma memória afetiva profunda nas pessoas, todo mundo tinha um pai que viu o rio limpo ou um avô que nadou nele, e o episódio do jacaré reacendeu essa ligação.

A Rádio Eldorado, vendo a redação tomada por correspondências de ouvintes pedindo a recuperação do rio, percebeu que a causa superava a vocação de uma emissora e convocou a SOS Mata Atlântica para liderar o movimento. Eu já atuava profissionalmente com a pauta de águas em consórcios intermunicipais e, em 1991, assumi oficialmente a condução dessa frente na SOS. Transformamos aquele apelo popular em um abaixo-assinado formal. A adesão foi avassaladora: colhiam-se assinaturas em batizados, bares, ruas e semáforos. O resultado foi a conquista de mais de 1,2 milhão de assinaturas válidas — um volume tão impressionante que precisou ser encadernado em centenas de livros, hoje preservados em locais históricos como o Museu do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE).

A campanha ganhou uma escala sem precedentes ao unir forças com o SESC, liderado pelo professor Danilo Santos de Miranda, e com a classe artística. Promovemos um show histórico de quase seis horas no Auditório Elis Regina, no Anhembi, com grandes nomes da música brasileira cantando em defesa do Tietê.

O debate sobre a despoluição do rio e o saneamento invadiu escolas, universidades, igrejas e sindicatos. Falava-se de urbanismo, de ocupações em áreas de mananciais como o Jardim Pantanal e das obras na Marginal. Toda essa efervescência popular ocorreu exatamente em 1991, servindo de combustível direto para a aprovação da Lei de Águas do Estado de São Paulo, e, mais tarde, para subsidiar a própria Lei Federal.

Posteriormente, assumi a presidência do Comitê da Bacia do Alto Tietê. Nossa visão nunca ficou restrita à região metropolitana ou às marginais: a campanha percorreu o estado, de Salesópolis, na nascente, até a foz, em Itapura, ao longo de 1.100 quilômetros. O movimento ativou subcomitês nos rios Sorocaba e Piracicaba. Cidades como Salto e Itu se mobilizaram ao perceber que o “riozinho” do seu fundo de quintal desaguava no Tietê e levava o seu esgoto adiante. Teve até um juiz que desceu o Tietê de barco, gerando enorme repercussão na imprensa.

Essa mobilização provou que o engajamento social é o motor mais poderoso para a transformação ambiental. Não houve no Brasil outra campanha dessa magnitude em defesa de um rio. É uma memória fundamental que o setor de saneamento precisa registrar e resgatar: uma história de cidadania construída em São Paulo que mostra que a pressão pública é, e sempre será, a chave para acelerar a universalização.  

Saneas Online – Você foi um dos grandes articuladores da aprovação da Lei da Mata Atlântica (Lei nº 11.428/2006), que é considerado o primeiro bioma brasileiro com uma lei específica de proteção. Na hora de implantar grandes infraestruturas de saneamento — como interceptores de esgoto, adutoras ou novas ETAs que inevitavelmente cortam áreas de vegetação nativa —, como equilibrar o rigor dessa lei com a urgência das obras de utilidade pública para a saúde da população? 

Mario Mantovani – A Lei da Mata Atlântica foi uma conquista histórica fruto de 15 anos de intensa mobilização, aprovada finalmente em 2006. Todo esse movimento nasceu ainda durante a Assembleia Constituinte de 1988, quando a SOS Mata Atlântica começou a aplicar imagens de satélite e rigor científico para mapear o bioma. Descobrimos que a Mata Atlântica não se restringia à Serra do Mar: ela se estendia do Ceará ao Rio Grande do Sul, alcançando o Paraguai. Mas a descoberta mais estarrecedora foi que restavam apenas 10% da vegetação original e perdíamos o equivalente a um campo de futebol de floresta a cada quatro minutos.

Foi nesse momento que associamos diretamente a conservação da floresta à produção de água. A Mata Atlântica é a maior caixa d’água e a principal responsável pelo abastecimento de mais de 70% da população brasileira. Sem a floresta em pé, os rios assoreiam, os mananciais secam e o saneamento básico se torna inviável. Fazer a sociedade e os parlamentares entenderem essa dependência vital foi o grande motor da nossa campanha.

Unimos cientistas, ambientalistas, grandes agências de publicidade, como a DPZ, que criou campanhas históricas no Jornal da Tarde, e a sociedade civil. Formamos uma rede de cerca de 300 ONGs e levamos a Brasília abaixo-assinados com mais de 700 mil desenhos de crianças cobrando a aprovação da lei. Enfrentamos enorme resistência e discursos alarmistas de que a legislação iria “parar o Brasil”. O tempo provou o contrário: o país continuou se desenvolvendo, a vegetação nativa começou a dar sinais de recuperação e a legislação garantiu a proteção das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e matas ciliares, essenciais para conter o assoreamento dos rios.

Essa relação se reflete também na implantação da infraestrutura de saneamento, como interceptores, adutoras e estações de tratamento. A Lei da Mata Atlântica foi desenhada prevendo o uso sustentável e a proteção, abrindo exceções claras para obras de utilidade pública e interesse social. O saneamento se enquadra exatamente nesses dois conceitos. Nunca houve um conflito real entre a proteção do bioma e a expansão do saneamento porque ambos buscam o mesmo fim: a saúde pública e a segurança hídrica. A floresta produz a água limpa de que precisamos, e o saneamento garante o seu ciclo sustentável. Uma pauta não existe sem a outra.  

Saneas Online – Como peça-chave na aprovação da Lei da Mata Atlântica e com sua experiência na Fundação Florestal, você sempre defendeu que “água nasce na floresta”. Diante das crises climáticas extremas, como o setor de saneamento pode passar de um mero “tratador de água e esgoto” para um ator ativo no financiamento e na proteção das bacias hidrográficas e Unidades de Conservação? 

Mario Mantovani – A crise climática colocou um ponto final na era em que a água era tratada como um recurso inesgotável. O modelo tradicional de saneamento, desenhado na década de 1970 — focado apenas em buscar água cada vez mais longe, conectar tubulações e tratar a ponta —, esgotou suas possibilidades. Os eventos extremos e episódios frequentes de estiagem, como as recorrentes pressões sobre o Sistema Cantareira, escancaram a urgência de uma nova visão: o setor de saneamento precisa se posicionar como um agente ativo da resiliência e da adaptação climática.

Hoje, os conhecimentos acumulados nos permitem evoluir. A antiga Lei de Mananciais de 1977, por exemplo, pautava-se em um modelo burocrático e proibitivo do “não pode”, que acabou não impedindo a ocupação irregular e a contaminação das bacias. Hoje, a ciência nos mostra que a preservação da infraestrutura natural é o melhor investimento econômico e operacional. Investir na proteção de nascentes, na recomposição de matas ciliares e na conservação das áreas de recarga de aquíferos reduz drasticamente os custos operacionais. Atualmente, gasta-se mais dinheiro desassoreando rios urbanos atulhados de areia do que investindo preventivamente na conservação da bacia hidrográfica. Além disso, a redução de perdas na distribuição passou a ser uma obrigação climática imediata.

A urgência desse debate é respaldada pelo consenso científico global consolidado pelo IPCC. As projeções sobre o aumento da temperatura do planeta não são teorias, são dados processados pelas mentes e computadores mais avançados do mundo. E, quando a água falta na torneira, a população não cobra o IPCC; ela cobra a prestadora do serviço.

É por isso que a proteção dos mananciais e a universalização do saneamento são pautas que devem estar acima de qualquer disputa ideológica ou modelo de gestão. A água não tem partido. Durante anos, usei um mantra na Rádio Eldorado que continua dolorosamente atual: o rio é o espelho da sociedade. Se o rio está cheio de esgoto, a sociedade está doente; se carrega terra, a sociedade está usando mal o seu solo; se está tomado por lixo, é uma sociedade que descobre a própria incivilidade. O saneamento do futuro exige que o setor assuma o protagonismo no financiamento da natureza, protegendo a floresta para garantir o recurso na fonte. 

Saneas Online – Quando falamos em universalização do saneamento, o debate quase sempre foca no ambiente urbano. A sua experiência pode nos dar uma ideia de como avançar no saneamento rural e nas comunidades tradicionais (ribeirinhas, quilombolas, indígenas) em biomas pressionados, onde a ausência desse serviço impacta diretamente a qualidade da água que vai abastecer as grandes cidades? 

Mario Mantovani – O saneamento rural no Brasil ainda carrega uma dívida histórica gigantesca. Durante décadas, a realidade no campo esteve resumida às fossas rudimentares. Embora hoje existam soluções tecnológicas simples e eficientes, como as fossas biodigestoras e os sistemas pré-fabricados, cada vez mais comuns em propriedades rurais e chácaras, o acesso a essas alternativas ainda não se universalizou entre as populações tradicionais, como quilombolas, ribeirinhos e indígenas.

Atuando junto à Fundação Amazônia Sustentável (FAS), vi de perto o abismo que separa o Sul e Sudeste da realidade amazônica. Em muitas comunidades ribeirinhas, as casas em palafitas lançam os efluentes diretamente no rio, que é o mesmo corpo d’água de onde as famílias retiram a água para beber, cozinhar e lavar. Historicamente, criou-se o mito de que o meio ambiente e a água na Amazônia eram infinitos, até o dia em que vivenciamos secas históricas, como a do Rio Negro. Comunidades ao longo do igarapé Tarumã, ao lado de Manaus, onde ajudamos a criar o primeiro Comitê de Bacia Hidrográfica do Norte do Brasil, sofrem hoje com secas extremas consecutivas e com a perda da qualidade da água que elas próprias acabaram contaminando por falta de esgotamento adequado. Moradores de 80 ou 90 anos relataram que nunca viram as secas chegarem de forma tão drástica.

Projetos estruturantes tentaram mudar esse cenário, como o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), idealizado em moldes semelhantes aos grandes programas do Sudeste. No entanto, a grande chave para o saneamento rural e para a preservação desses biomas pressionados continua sendo o engajamento e a capacitação local.

A partir de 1995, quando a SOS Mata Atlântica implementou o programa de monitoramento participativo das águas, equipamos a própria sociedade com caminhões-laboratório para medir a qualidade dos rios em dezenas de municípios. Esse trabalho descentralizado formou uma geração inteira de lideranças: jovens que começaram a vida comunitária medindo a água do rio da sua cidade e que, anos mais tarde, tornaram-se vereadores, prefeitos, parlamentares e gestores ambientais em órgãos como o Ibama e nos próprios Comitês de Bacias. É essa formação de cidadania no campo e nas pequenas comunidades que vai garantir que o saneamento rural deixe de ser uma pauta invisível e se torne prioridade para a segurança hídrica de todo o país. 

Saneas Online – Como Diretor de Relações Institucionais da Anamma, você conhece de perto a realidade dos governos locais. O Marco Legal do Saneamento trouxe metas rígidas de universalização, mas muitos municípios sofrem com a falta de governança ambiental e técnica. De que forma o fortalecimento das secretarias municipais de meio ambiente pode destravar a agenda de saneamento básico na ponta? 

Mario Mantovani – Na Anamma, vivenciamos diariamente o grande gargalo da ponta: a maioria dos governos locais ainda está distante da gestão direta e da governança do saneamento básico. O Marco Legal estabeleceu metas rígidas de universalização, mas a execução esbarra na falta de capacidade técnica e de apropriação dos municípios sobre essa pauta, quer o serviço seja prestado por empresas estaduais ou por concessionárias privadas.

Historicamente, o debate sobre o saneamento no município acabou restrito a negociações políticas entre prefeituras e Câmaras de Vereadores na renovação de contratos de concessão ou termos de cooperação. Perdeu-se, com isso, a oportunidade de trazer essa agenda para instâncias técnicas e deliberativas fundamentais, como os Conselhos Municipais de Meio Ambiente, que possuem peso e competência equivalentes aos conselhos estaduais (como o Consema, em São Paulo) e ao próprio Conama.

A grande chave para fortalecer as secretarias de meio ambiente e destravar a universalização é reaproximar o saneamento da sociedade civil e dos mecanismos do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama) e do Sistema Nacional de Recursos Hídricos, arranjo que ajudei a desenhar e que espelhou a estrutura participativa do meio ambiente. Embora os prefeitos tenham assento e voto nos Comitês de Bacias Hidrográficas e acesso a recursos de fundos como o Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro), a participação municipal muitas vezes se resume à busca por soluções paliativas ou a pressões pontuais sobre as companhias de saneamento, em vez de uma construção estratégica de longo prazo.

Para avançar, os secretários municipais de meio ambiente precisam assumir o saneamento como pauta central do seu dia a dia. Modelos bem-sucedidos de cooperação regional, como o Consórcio da Bacia dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), demonstram a força dos consórcios intermunicipais para engajar gestores, captar recursos e integrar projetos de saneamento e conservação. Na Anamma, criamos uma diretoria específica para atuar nessa frente, mas o desafio permanece: os governos locais precisam se apropriar definitivamente da gestão do saneamento para que as metas do Marco Legal se convertam em realidade na vida dos cidadãos. 

Saneas Online – Para encerrar, celebrando as quatro décadas da AESabesp, qual mensagem você deixa para a nova geração de engenheiros, técnicos e gestores que assumem o setor em plena era de transição climática? Qual deve ser o grande compromisso ético e ambiental da liderança do saneamento para os próximos anos? 

Mario Mantovani – Estamos vivendo uma mudança profunda de paradigma. A engenharia e a gestão do saneamento não se resumem mais a escavar valas, assentando canos ou transportando água de uma bacia para outra. A nova geração de engenheiros, técnicos e gestores que assume o setor em plena era de transição climática chega munida de muita tecnologia e de um acervo sem precedentes de conhecimento acumulado. No entanto, o grande trunfo dessa liderança precisa ser a consciência ética do alcance do seu trabalho.

O saneamento é a base estruturante da saúde pública e da qualidade de vida. Enquanto discursos políticos insistirem na promessa de construir mais hospitais, cabe aos profissionais do saneamento lembrar que o nosso papel é justamente evitar que as pessoas adoeçam. Garantir água potável na torneira, tratar o efluente e devolver o rio limpo para a natureza é a medicina preventiva mais eficiente que existe.

Isso exige entender que a infraestrutura cinza depende fundamentalmente da infraestrutura verde: a floresta em pé é a verdadeira fábrica de água. Um belo exemplo desse novo olhar é a transformação de áreas operacionais e de proteção da própria Sabesp em parques públicos.

A resiliência e a adaptação climática exigem desapegar de velhos manuais. Os conceitos tradicionais de “tempo de retorno” ou chuvas máximas para 100 anos já não servem para o presente; os eventos adversos, secas severas e temporais devastadores, estão encurtados e imprevisíveis. Além disso, as empresas de saneamento precisam assumir um protagonismo mais cidadão e menos corporativo nas instâncias de decisão. Sempre senti falta de uma presença mais engajada e colaborativa das grandes companhias dentro dos Comitês de Bacias Hidrográficas, atuando ao lado da sociedade e dos municípios, e não apenas defendendo interesses operacionais.

Celebrar os 40 anos da AESabesp neste momento de transição é um convite para que a nova geração abrace este compromisso ético: usar a ciência e a tecnologia para colocar o saneamento no centro da adaptação climática, da preservação dos biomas e da transformação social do Brasil.

* 40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro

A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.