Diante da intensificação dos eventos climáticos extremos, Thiago Augusto Terada, fundador e CEO da Genera Bioeconomia, defende uma nova visão sobre as cidades, baseada na integração entre infraestrutura, natureza, economia circular e segurança hídrica.
Os eventos climáticos extremos já fazem parte da realidade das cidades brasileiras e impõem novos desafios ao planejamento urbano. Secas prolongadas, chuvas intensas e outros fenômenos exigem mais do que o reforço da infraestrutura convencional: demandam uma mudança de mentalidade, capaz de integrar soluções baseadas na natureza, saneamento, segurança hídrica, gestão de resíduos e economia circular. Nesse cenário, pensar cidades resilientes significa criar sistemas urbanos capazes não apenas de resistir aos impactos, mas também de absorvê-los e se recuperar rapidamente.
Quem acompanha de perto essas transformações é Thiago Augusto Terada, executivo e empreendedor com trajetória nos setores de bioeconomia, infraestrutura e indústria. Fundador e CEO da Genera Bioeconomia, empresa dedicada à restauração florestal e a soluções ambientais inovadoras, Terada também acumula experiência na gestão de concessionárias de saneamento nos estados do Amazonas, Pará e Mato Grosso e no setor químico. Nesta série de entrevistas, que celebra os 40 anos da AESabesp, ele analisa os caminhos para cidades mais resilientes e defende a integração dos diferentes sistemas urbanos como estratégia para transformar desafios ambientais em oportunidades de inovação e geração de valor. Confira a entrevista na íntegra:
Saneas Online – O conceito de cidades resilientes ganhou força diante dos eventos climáticos extremos. Na sua visão, o que uma cidade precisa fazer hoje para estar preparada para os desafios ambientais das próximas décadas?
Thiago Augusto Terada – Estar preparado para os desafios das próximas décadas exige, antes de tudo, uma mudança na nossa forma de pensar e planejar o espaço urbano. Durante muito tempo, tentamos dominar o meio ambiente com concreto e engenharia bruta. Hoje, precisamos entender que o único caminho sustentável é planejar as cidades com a natureza inserida no contexto, e não lutando contra ela. Os eventos climáticos extremos deixaram de ser alertas distantes e viraram a nossa realidade cotidiana — estamos vivenciando secas cada vez mais prolongadas, tempestades muito mais severas e ventos fortes que paralisam a rotina urbana. Para nos adaptarmos a essa nova dinâmica, as cidades precisam desenvolver capacidade de absorção e resposta. Isso significa readequar o uso do solo, criar espaços capazes de reter o excesso de água das chuvas intensas para aliviar os sistemas de drenagem, proteger e recuperar as cabeceiras dos rios para garantir água nos períodos de estiagem e reforçar a infraestrutura contra intempéries. Não se trata apenas de erguer muros mais altos, mas de redesenhar a convivência urbana de modo que a cidade consiga responder, absorver o impacto e se recuperar rapidamente quando o evento extremo acontecer, protegendo a vida das pessoas.
Saneas Online – Como a bioeconomia e o aproveitamento de resíduos e recursos naturais podem contribuir para tornar as cidades mais resilientes, sustentáveis e menos dependentes de modelos tradicionais de produção e consumo?
Thiago Augusto Terada – A bioeconomia muda radicalmente a nossa percepção sobre o que é riqueza e o que é descarte. Até pouco tempo atrás, a gestão de resíduos sólidos era vista quase exclusivamente como uma simples logística de depósito — o desafio era apenas tirar o lixo da vista da população e levá-lo para um aterro. Hoje, esse setor é enxergado como uma verdadeira indústria, na qual o resíduo deixa de ser um problema e passa a ser matéria-prima estratégica. Ao transformar a fração orgânica do lixo e do esgoto em energia, especialmente na forma de biometano, conseguimos abastecer frotas públicas, gerar energia limpa e reduzir diretamente a dependência de combustíveis fósseis. No contexto mundial atual, marcado por instabilidades geopolíticas e volatilidade em cadeias globais, a produção local de energia e de insumos renováveis a partir de resíduos deixou de ser apenas uma pauta ambiental: tornou-se um item estratégico de segurança nacional. As cidades que dominam o aproveitamento de seus recursos orgânicos ganham autonomia energética, reduzem suas emissões e fortalecem sua resiliência econômica.
Saneas Online – Saneamento, gestão de resíduos, segurança hídrica e adaptação climática estão cada vez mais interligados. Como essa integração pode transformar a infraestrutura urbana e gerar novas soluções para as cidades brasileiras?
Thiago Augusto Terada – A grande transformação da infraestrutura urbana acontece quando paramos de tratar os quatro pilares do saneamento — água, esgoto, resíduos e drenagem — como compartimentos isolados. Precisamos olhar para essa estrutura como partes de uma mesma engrenagem, em que o resíduo ou a saída de um processo se torna exatamente o ponto de partida de outro, sob uma perspectiva estritamente circular. Por exemplo, a eficiência na gestão de resíduos sólidos e na limpeza pública impede o entupimento da rede de drenagem, prevenindo alagamentos em momentos de chuvas fortes. O tratamento adequado do esgoto protege os mananciais de água bruta, contribuindo para a segurança hídrica e barateia o processo de potabilização da água que chega às torneiras. Ao mesmo tempo, o lodo do esgoto e a matéria orgânica dos resíduos se transformam em energia para operar as estruturas de bombeamento e biofertilizantes para melhorar a área verde da cidade. Quando conectamos esses fluxos, a infraestrutura urbana deixa de ser um somatório de custos operacionais e passa a operar como um sistema integrado de proteção e geração de valor para a cidade.
Saneas Online – A AESabesp completa 40 anos acompanhando grandes transformações no saneamento. Olhando para os próximos 40 anos, quais mudanças de mentalidade, tecnologias e políticas públicas serão fundamentais para construir cidades verdadeiramente resilientes no Brasil?
Thiago Augusto Terada – Ao olhar para as próximas quatro décadas da AESabesp, vejo esse futuro claramente dividido em duas grandes fases de evolução do setor. Na primeira fase, nos próximos 20 anos, o foco central estará na busca e consolidação da universalização do saneamento, impulsionada pelos volumosos investimentos contratados e pelas metas rigorosas do Marco Legal do Saneamento, com o objetivo prioritário de fechar o déficit histórico de acesso à água potável e ao esgotamento sanitário no país. Já na segunda fase, superada essa etapa do acesso básico, entraremos no período que vai intensificar e elevar a onda de investimentos que começou a ganhar força na agenda pública após a crise hídrica de 2014. Esse segundo momento concentrará esforços na gestão eficiente do ciclo da água e na resiliência hídrica dos nossos reservatórios e mananciais, promovendo um salto definitivo para a economia circular e a biotecnologia. Nessa fase, o setor de saneamento se consolida como um grande vetor de descarbonização, transformando estações de tratamento em hubsde produção de biometano, água de reúso e bioinsumos, tudo isso suportado por regulações modernas, integração efetiva com o mercado de carbono e políticas sólidas de pagamento por serviços ambientais prestados.
*40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro
A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.






