Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 7: Saneamento deve ser protagonista na agenda ESG

Aron

Aron Belinky, pesquisador e referência em sustentabilidade, defende que o setor precisa avançar em governança, inovação e universalização dos serviços.

No ano em que completa quatro décadas de atuação no saneamento, a Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp) reúne 40 personalidades que, com visão, trabalho e dedicação, ajudam a construir diariamente os caminhos do setor no Brasil. Desta vez, a Saneas Online conversa com Aron Belinky, pesquisador, professor e consultor reconhecido por sua atuação nas áreas de sustentabilidade, ESG e economia de impacto. Sócio líder da ABC Associados, ele participa de projetos estratégicos como a seleção de empresas para os principais índices de sustentabilidade da B3 e o apoio à estruturação do Sistema Nacional de Economia de Impacto (Simpacto), em parceria com Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Doutor e mestre pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV), Aron Belinky analisa, nesta entrevista especial, a evolução da sustentabilidade empresarial nas últimas décadas e o papel estratégico do saneamento nesse cenário. Para o especialista, o setor precisa ir além do foco em grandes obras e priorizar eficiência, inovação, proteção de mananciais, diálogo com a sociedade e universalização dos serviços.

Saneas Online – O senhor é considerado um dos pioneiros do ESG no Brasil. Como avalia a evolução da agenda de sustentabilidade empresarial nas últimas décadas e em que estágio o setor de saneamento se encontra hoje dentro desse movimento?

Aron Belinky – A agenda de sustentabilidade empresarial no Brasil passou por uma transformação significativa nas últimas décadas. Se tomarmos como referência marcos como a Rio-92 e, posteriormente, a Rio+20, é possível observar uma mudança profunda. Nos anos 1990, o tema ainda era tratado sob a ótica da ecologia e permanecia distante das estratégias empresariais.

Atualmente, a sustentabilidade – mesmo que às vezes com outros nomes – tornou-se parte integrante da tomada de decisão. O que antes era visto apenas como exigência regulatória evoluiu para ser também um diferencial competitivo e, hoje, configura-se como elemento estratégico para as organizações. Essa mudança também reflete um contexto global marcado por evidências mais visíveis das mudanças climáticas, da pressão sobre os recursos naturais e da intensificação da urbanização. Com certeza ainda há empresas atrasadas nessas pautas, mas de uma forma ou de outra, todas acabam sendo pressionadas a avançar.

Apesar desse avanço, persistem desafios relevantes, especialmente relacionados à predominância de uma visão de curto prazo, tanto por parte de empresas quanto de investidores. Essa lógica frequentemente compromete a adoção de medidas estruturais necessárias para enfrentar impactos ambientais e sociais de forma consistente.

No caso do setor de saneamento, embora sua natureza esteja diretamente associada à agenda da sustentabilidade, sua atuação ainda não se destaca como protagonista. O setor permanece aquém do necessário, especialmente diante das dificuldades históricas do Brasil em garantir o acesso universal à água potável e ao esgotamento sanitário. 

Saneas Online – Na sua opinião, como empresas de saneamento podem ir além do “discurso verde” e implementar uma governança realmente sustentável, capaz de gerar valor e confiança para investidores e sociedade?

Aron Belinky – Para avançar além do discurso, as empresas de saneamento precisam assumir o protagonismo na oferta de um serviço essencial à sociedade. Isso implica compreender sua atuação não apenas como execução de obras de engenharia, mas como a entrega contínua, sustentável e universal de condições básicas de saúde e qualidade de vida.

Com frequência, o setor é percebido prioritariamente como executor de infraestrutura — construção de estações, redes e sistemas — em detrimento de sua função social. Essa abordagem limita a construção de uma governança efetivamente orientada ao impacto.

Exemplos dessa distorção são a baixa visibilidade de temas como a redução de perdas nas redes de distribuição e a proteção ou recuperação de áreas de mananciais e de recarga de aquíferos. Apesar de sua relevância estratégica, esse tipo de iniciativa ainda não ocupa posição central na agenda do setor, que tende a dar mais prestígio e visibilidade a grandes obras, como o transporte de água por distâncias cada vez maiores.

Nesse sentido, uma governança sustentável exige reorientar prioridades, com foco no atendimento à população e na efetividade dos serviços prestados, mais do que na expansão de obras.

Saneas Online – Com sua participação em iniciativas globais como a construção da ISO 26000 e os debates da Rio+20, quais aprendizados internacionais o senhor considera mais relevantes para o contexto brasileiro, especialmente no setor de saneamento?

Aron Belinky – A experiência em iniciativas internacionais evidencia uma tensão permanente entre os objetivos empresariais e as demandas da sociedade. Nem sempre há convergência entre a maximização da rentabilidade e o atendimento pleno das necessidades coletivas.

Diante disso, torna-se fundamental a participação ativa da sociedade, das partes interessadas e do poder público nos processos decisórios, especialmente na definição de prioridades e na alocação de investimentos. O papel do Estado como regulador é essencial para estabelecer diretrizes e equilibrar esses interesses.

No setor de saneamento, essa discussão se reflete, por exemplo, no modelo de remuneração baseado no volume de água fornecido. Esse formato pode desestimular o uso racional dos recursos e não necessariamente prioriza a ampliação do acesso. A reflexão sobre novos modelos, que valorizem o atendimento à população e a eficiência no uso dos recursos, é um ponto relevante para o avanço do setor. 

Saneas Online – O saneamento está diretamente ligado ao ciclo de recursos naturais. Como o conceito de economia verde pode ser aplicado de forma concreta pelas companhias do setor, transformando desafios ambientais em oportunidades de inovação e negócios?

Aron Belinky – O saneamento está diretamente ligado ao uso e à gestão de recursos naturais, especialmente a água. Nesse contexto, a aplicação dos princípios da economia verde exige repensar modelos tradicionais de operação e expansão.

Uma abordagem alinhada à sustentabilidade deve priorizar o atendimento de um maior número de pessoas dentro dos limites ambientais, evitando soluções baseadas exclusivamente na ampliação da oferta por meio de grandes obras ou captação de recursos cada vez mais distantes.

Alternativas como a redução de desperdícios, o incentivo ao consumo racional e o desenvolvimento de soluções descentralizadas de tratamento representam caminhos promissores. Essas abordagens podem ampliar o acesso com menor impacto ambiental e maior eficiência no uso de recursos. O mesmo se aplica às tecnologias disponíveis para “produção de água”, que podem aumentar a oferta hídrica com soluções de baixo custo e geradoras de benefícios adicionais, como fixação de carbono e mais áreas preservadas para proteção ambiental e lazer.

A inovação, portanto, não deve se restringir à engenharia de grandes sistemas, mas incorporar novas formas de gestão, tecnologias descentralizadas e modelos que priorizem a sustentabilidade de longo prazo. São as chamadas “Soluções Baseadas na Natureza”, ou NBS, na sigla em inglês.

Saneas Online – O senhor tem ampla experiência com engajamento de stakeholders. Como concessionárias de saneamento podem equilibrar interesses de governos, reguladores e comunidades, garantindo transparência e legitimidade em suas ações?

Aron Belinky – O equilíbrio entre interesses de governos, reguladores e comunidades depende de processos estruturados de diálogo, transparência e participação. O engajamento efetivo de stakeholders não é simples, tampouco imediato, mas constitui condição essencial para a construção de legitimidade.

Esse processo exige investimento, planejamento e a incorporação de metodologias adequadas, muitas vezes oriundas das ciências sociais. Não se trata apenas de cumprir exigências legais, mas de promover uma escuta qualificada e uma participação efetiva das comunidades envolvidas.

Na prática, observa-se que muitas iniciativas e empresas ainda se limitam a ações formais de comunicação, sem aprofundar o diálogo. No entanto, soluções sustentáveis dependem da compreensão real das demandas sociais e da construção conjunta de alternativas.

Assim, o avanço do setor passa por uma mudança de perspectiva: reconhecer o saneamento não apenas como atividade de engenharia, mas como um serviço de base social, que exige novas abordagens para enfrentar desafios históricos e alcançar resultados mais eficazes e sustentáveis.