Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 6 – Gestão de resíduos: de custo a estratégia  

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Com mais de 25 anos de experiência, a especialista Susi Uhren Meira defende que a cultura organizacional, o uso de indicadores e a atuação na origem são fatores-chave para transformar a gestão ambiental em eficiência econômica.

Ao celebrar quatro décadas de atuação, a Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp) reúne 40 personalidades que ajudam a construir diariamente o saneamento no Brasil. Nesta entrevista, Susi Uhren Meira, sócia-proprietária da Singular Ambiental, compartilha sua ampla experiência no gerenciamento de resíduos e reforça uma mudança de paradigma no setor: mais do que obrigação legal, a gestão ambiental deve ser incorporada como parte estratégica das operações, capaz de reduzir custos, prevenir riscos e otimizar processos.

Ao longo da conversa, Susi destaca que os melhores resultados surgem quando a gestão deixa de ser apenas técnica e passa a ser cultural, envolvendo toda a organização: da segregação na origem ao engajamento das equipes. Com foco em indicadores, rastreabilidade e melhoria contínua, ela aponta que atuar na redução da geração de resíduos e no uso eficiente de recursos é o caminho mais consistente para aliar desempenho operacional, viabilidade econômica e responsabilidade ambiental no longo prazo.

Confira a entrevista:

Saneas Online – Na sua experiência, como a gestão ambiental pode deixar de ser vista como custo e passar a ser encarada como investimento estratégico pelas empresas de saneamento? 

Susi Uhren Meira – Não só para empresas de saneamento, mas a gestão ambiental é um sistema que visa à redução de custos e ao aprimoramento dos processos em todas as suas etapas. Desde a gestão dos resíduos até a otimização do uso de recursos naturais, como água e energia, sua aplicação contribui diretamente para a eficiência operacional. Quando incorporada ao planejamento estratégico, a gestão ambiental deixa de ser percebida apenas como uma exigência legal ou um gasto adicional e passa a representar um investimento capaz de gerar economia, prevenir desperdícios, reduzir riscos de multas e passivos ambientais, além de fortalecer a reputação da empresa. 

Saneas Online – A correta classificação de resíduos é frequentemente apontada como chave para eficiência. De que forma esse processo impacta diretamente a redução de custos operacionais e a escolha das tecnologias de tratamento? 

Susi Uhren Meira – Embora a correta classificação dos resíduos seja uma etapa essencial, ela não deve ser vista como a principal chave para a eficiência. O fator decisivo está na construção de uma cultura orientada à gestão ambiental, baseada no comprometimento de todos os envolvidos. Assim, a eficiência deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a ser resultado de uma cultura institucional sólida, na qual a responsabilidade ambiental é incorporada à rotina e às decisões estratégicas da empresa. Quanto à redução de custos, a gestão adequada dos resíduos minimiza os desperdícios de matéria-prima, otimiza fluxos internos e diminui gastos com armazenamento, transporte e destinação final. Quando há segregação correta na fonte, reaproveitamento de materiais e monitoramento dos volumes gerados, a empresa consegue reduzir significativamente o volume de rejeitos enviados para aterros ou incineração. 

Saneas Online – Considerando toda a cadeia, da geração à destinação final, onde estão hoje as maiores oportunidades de otimização de processos no setor de saneamento? 

Susi Uhren Meira – Considerando que o gerenciamento de resíduos integra as ações de saneamento básico, uma das maiores oportunidades de otimização de processos está na atuação sobre a origem da geração dos resíduos, especialmente no que se refere às embalagens, hoje entre os principais responsáveis pelo aumento do volume descartado. Nesse sentido, a redução do uso de embalagens, a substituição por materiais reutilizáveis ou recicláveis e o estímulo ao consumo consciente representam estratégias de melhoria com impacto direto em toda a cadeia, da coleta à destinação final. Ao reduzir o volume gerado na fonte, diminuem-se os custos com transporte, triagem, tratamento e disposição, além de ampliar a eficiência dos sistemas públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos. 

Saneas Online – A gestão de resíduos perigosos envolve exigências técnicas e legais rigorosas. Como equilibrar segurança, conformidade e viabilidade econômica sem comprometer a operação? 

Susi Uhren Meira – O maior erro é enxergar a segurança e a conformidade como custos isolados. Na prática, elas funcionam como mecanismos de proteção contra perdas muito maiores, como acidentes, paralisações, passivos ambientais, multas e danos reputacionais previstos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. A viabilidade econômica surge quando a empresa investe em classificação correta, segregação na fonte, acondicionamento adequado, treinamento das equipes e rastreabilidade documental, evitando contaminação cruzada, retrabalhos e destinações incompatíveis, que costumam elevar significativamente os custos. Além disso, o mapeamento dos fluxos permite identificar oportunidades de minimização, reaproveitamento e redução do volume encaminhado para tecnologias mais onerosas, como incineração e aterros classe I.

Saneas Online – Do ponto de vista prático, quais indicadores ou métricas as empresas devem acompanhar para garantir que sua gestão ambiental seja eficiente tanto técnica quanto financeiramente? 

Susi Uhren Meira – As empresas devem acompanhar indicadores ligados ao consumo de recursos, geração de resíduos, conformidade legal e retorno das ações implementadas. Entre os principais estão: consumo de água e energia por unidade operacional, volume de resíduos gerados, taxa de reciclagem e reaproveitamento, percentual de resíduos perigosos, emissões atmosféricas e qualidade dos efluentes. Esses dados mostram a eficiência do processo e ajudam a identificar desperdícios, gargalos e oportunidades de melhoria. 

Saneas Online – A capacitação de equipes e a conscientização na origem podem influenciar nos resultados econômicos? Como o engajamento de colaboradores impacta a eficiência e os custos da gestão de resíduos?

Susi Uhren Meira – Sim. Na prática, esse é um dos fatores de maior impacto nos resultados econômicos da gestão de resíduos. A tecnologia, os procedimentos e os indicadores são fundamentais, mas sem pessoas capacitadas e conscientes na origem, grande parte da eficiência se perde ao longo da operação. Quando a empresa investe em educação ambiental, comunicação interna e participação ativa das equipes, a gestão deixa de depender exclusivamente de controles técnicos e passa a alcançar resultados mais consistentes, com menor custo operacional e maior sustentabilidade econômica no longo prazo.