Ana Silvia Santos, presidente e fundadora do Instituto Reúso de Água (IRdA), aborda os desafios e obstáculos para o avanço das práticas de reúso de água no Brasil e compartilha seus principais benefícios para a sustentabilidade.
O avanço do reúso de água no Brasil ainda enfrenta diversos obstáculos no cenário nacional, seja pela falta de informação sobre os processos de descontaminação, seja pela necessidade de uma regulamentação mais forte em nível federal para garantir a segurança e o bom funcionamento dessa prática em qualquer região. Do ponto de vista da sustentabilidade, o reúso é um forte aliado que pode auxiliar não só na redução do desperdício de água potável, mas também na redução da contaminação dos recursos hídricos em todo o país.
Uma das instituições mais engajadas em difundir a pesquisa e o conhecimento técnico sobre o tema é o Instituto Reúso de Água (IRdA), uma organização sem fins lucrativos focada em traduzir e levar informação sobre o reúso para a sociedade. Nesta entrevista, a presidente do Instituto Reúso de Água, Ana Silvia Santos, também fundadora da plataforma, discorre sobre os desafios da regulação e fala sobre a relevância dessa prática para o meio ambiente.
Confira a entrevista!
Saneas Online: Pensando no cenário da crise climática, como o reúso de água pode auxiliar na gestão de impactos diretos como as enchentes e estiagens?
Ana Silvia: A prática institucionalizada de reúso de água traz inúmeras vantagens para a gestão de recursos hídricos e gestão de água e saneamento de maneira geral. Claro que, quando enfrentamos uma crise climática como a que enfrentamos hoje no mundo, é preciso um olhar ainda mais criterioso para esse aspecto, uma vez que estamos mais vulneráveis aos extremos climáticos.
Então os extremos, as cheias e as secas acabam se agravando. No caso das secas, o reúso se mostra como um dos pilares da solução. Não é uma solução única, claro. Temos várias ações que devem ser realizadas em conjunto e com planejamento para que esses desafios sejam minimizados.
Um reúso de água como conceito básico é quando reutilizamos uma água que num determinado momento foi usada para carregar dejetos e contaminantes. A água potável que nós usamos é transformada e vira uma água residuária porque passa a carregar esses resíduos e, posteriormente, há um tratamento avançado que permita a produção de uma água com qualidade para diferentes usos.
Essa água volta pro circuito do uso da água em vez de ser retornada para o meio como efluente tratado. Na crise hídrica, um dos principais impactos é a falta de água. Seja uma falta física que caracteriza escassez de fato ou uma falta em função de muitas demandas, que, nesse caso, é o estresse hídrico. Então, eu passo a colocar uma outra fonte de água no portfólio hídrico regional, de forma que a gestão possa fazer uso dessa nova fonte para os diferentes setores usuários da água. Essa é a grande chave. Eu entendo o reúso de água hoje como o principal pilar de enfrentamento da crise hídrica, consequência da crise climática que hoje acomete todo mundo.
Saneas Online: Quais são os segmentos que mais podem se beneficiar com o reúso de água? Qual é o potencial dessa prática em larga escala?
Ana Silvia:“Todos os setores hidrointensivos podem se beneficiar. É claro que cada setor vai demandar uma qualidade e uma quantidade diferente. Ou seja, se falarmos de irrigação agrícola, cada método de irrigação vai demandar uma qualidade de água diferente. Se mudamos o setor usuário, por exemplo, a irrigação paisagística, que não tem contato direto com alimentos, pessoas ou com animais, eu consigo fazer essa irrigação com a qualidade inferior. Agora, se falarmos de uma indústria ou até para uso potável, aí sim nós estamos falando de uma qualidade superior, é um dos usos mais exigentes em termos de qualidade.
Então, o setor usuário que pode ser mais beneficiado depende do planejamento local, do que se deseja com a institucionalização da prática naquela região.
Nós temos países no mundo que levaram a institucionalização do reúso para a sua maior dor. Por exemplo, Israel é um país que reutiliza 90%, aproximadamente, do seu esgoto tratado e praticamente toda a utilização é para irrigação agrícola. Outros países, como Singapura, que hoje utiliza em torno de 40% do seu efluente tratado, inicialmente apostou no reúso potável, hoje aplica mais no setor industrial, bem como a China, que também aplica no setor industrial por causa do objetivo de Desenvolvimento Socioeconômico. Os Estados Unidos, que já têm uma prática de reúso bastante consolidada, têm avançado bastante no reúso potável nos últimos dez anos. O setor mais beneficiado e o potencial estão relacionados principalmente com a dor e com o planejamento, o poder público vai direcionar esse processo.
Eu costumo dizer que o fato do nosso semiárido no Brasil ser uma região com desenvolvimento socioeconômico mais baixo não é por acaso. Onde tem água, tem mais avanço socioeconômico, então pode ser interessante haver um planejamento público de investimentos para levar desenvolvimento para essa região para além da água. A questão da água é óbvia, mas para além disso, usar a água como propulsor do desenvolvimento socioeconômico.
Todos os setores hidrointensivos podem ser muito beneficiados com a aplicação do reúso de forma sistematizada e há potencial em todas as regiões onde há uma um consumo hídrico relevante.”
Saneas Online: A falta de informação ou, muitas vezes, a desinformação sobre a segurança dos processos de descontaminação também é um grande obstáculo. De que forma o setor de saneamento e o poder público podem atuar para serem aliados ativos na disseminação de conhecimento técnico-científico acerca desse problema?
Ana Silvia: De fato essa rejeição existe. Quando falamos de esgoto temos sempre aquele entendimento de que é uma água contaminada, mas nós temos aí diferentes fontes de água residuária, que geram esse esgoto, que acaba sendo transportado pelas redes coletoras até chegar ao tratamento. Hoje em dia, nós temos tecnologias avançadas e esse não é o problema.
Nós temos bastante conhecimento no mundo, inclusive no Brasil, sobre tecnologias de tratamento de esgotos e água cuja eficiência e desempenho são consolidados. Sabemos que tecnologias simples que utilizamos no Brasil em larga escala, como as lagoas de estabilização, promovem alguma desinfecção por via natural. Essa água residuária tratada ainda consegue ter um bom nível de desinfecção, por exemplo, nas lagoas de maturação, processo simples que utilizamos bastante no Brasil.
Obviamente, essa água para reúso vai ser direcionada a usos menos exigentes em termos de qualidade. Já os usos mais exigentes demandam tecnologias mais avançadas. E aí entram as tecnologias de desinfecção como a filtração por membrana e processos oxidativos avançados. Nós conseguimos garantir nesses casos uma eficiência bastante elevada e até uma redução completa de carga microbiológica e carga patogênica.
Existem muitas metodologias científicas para a realização desses estudos e nós, no Instituto, utilizamos bastante uma metodologia que é parte da legislação da União Europeia. Portanto, do ponto de vista da ciência, é razoavelmente fácil comprovar a eficácia e a segurança da prática. Agora, como chegar na população, é a comunicação. Esse é exatamente o papel do Instituto Reúso de Água: traduzir esse conhecimento científico e transferir essa informação de uma forma mais acessível com projetos de capacitação, com debates, apresentação em eventos, congressos, conferências, de modo que possamos expandir o alcance da nossa voz.
Inclusive, o tema de 2026 para o Instituto Reuso de Água já foi anunciado no final do ano passado e estamos trabalhando exatamente a comunicação efetiva, tanto para comunicar bem os projetos de reuso em termos técnicos, como para comunicar a eficiência e a segurança da prática para a sociedade. Todas as segundas-feiras o IRdA tem feito uma postagem com uma imagem ou um vídeo curto exatamente para transcender a questão do paradigma de que a água residuária é ruim. Somente 0,1% da água residuária são sólidos, portanto a água residuária é água como todas as outras. Então, deixo um convite para quem quiser acessar as nossas redes sociais e conhecer a campanha Água 21. Nosso objetivo com essa campanha é que essas imagens sejam utilizadas pelas pessoas nos seus perfis individuais, nas suas reuniões, palestras e relatórios exatamente para quebrar esse paradigma.
Saneas Online: O Instituto Reúso de Água faz uma ponte importante entre Portugal e o Brasil para transformar o futuro da água por meio da ciência e da educação. Quais foram os resultados mais expressivos dessa cooperação luso-brasileira?
Ana Silvia: O Instituto Reúso de Água é uma cooperação internacional, nós somos uma ONG sem fins lucrativos que trabalha no ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação) na veia, o nosso carro chefe é exatamente essa cooperação.
Nós mergulhamos e nos aprofundamos no conhecimento mais avançado de regiões mais desenvolvidas, traduzimos, publicamos, produzimos conhecimento científico a partir desta fonte e traduzimos para uma linguagem mais acessível de forma que a sociedade possa receber melhor esse conhecimento.
Aqui em Portugal o IRdA tem várias parcerias. Participamos de debates, temos acesso a instituições que já praticam o reúso de forma institucionalizada e fazemos esse intercâmbio entre os nossos membros associados.
Vou compartilhar um spoiler: em outubro teremos um workshop no Congresso da International Water Association. Vamos apresentar exatamente essa sinergia entre Brasil e Portugal. Serão apresentados cases dos dois países, estaremos lá com nossos membros e com companhias do Brasil e de Portugal, que vão apresentar seus diferentes modelos de negócio utilizados nos seus projetos. Então esse é de fato o nosso papel no Instituto Reúso de Água.
Saneas Online: No âmbito da regulação, qual deve ser o próximo passo para garantir que as políticas de reúso de água avancem no Brasil?
Ana Silvia: Esse é um dos temas que a gente mais estuda no Instituto. Nos anos de 2023 e 2024, nós trabalhamos a regulamentação de maneira geral e produzimos no nosso grupo de trabalho as Diretrizes para o Reuso de Água no Brasil, um documento que chamamos de DRAB. Construímos esse documento de maneira voluntária com forte embasamento técnico-científico, com outros exemplos e experiências internacionais, com o objetivo de dar um produto pronto para o governo brasileiro utilizar como base para a estruturação do seu quadro regulatório.
O IRdA também vem trabalhando essas questões na nossa produção científica já há alguns anos e temos vários artigos e estudos publicados nesse tema. Nesses estudos, entendemos quais são as lacunas para esse planejamento e estruturação do quadro regulatório nacional e trabalhamos para tentar fechar essas lacunas. Como eu disse e repito, de maneira voluntária.
A primeira regulamentação de reuso no mundo é de 1918, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Nós estamos em 2026, já se passaram mais de 100 anos e o Brasil ainda não tem uma regulamentação a nível federal que defina padrões de qualidade de água. Temos poucos documentos legais estaduais que também definem padrões de qualidade de água. Temos muitos documentos que abordam o reuso de água, mas ainda não de maneira consistente que permita e incentive o avanço.
Então nós entendemos que para incentivar o avanço é preciso a gente ter um quadro regulatório com a definição de padrões de qualidade de água e que esses padrões sejam padrões de incentivo e não padrões que freiam o avanço, mas obviamente com o pano de fundo garantido na segurança sanitária ambiental.
Em função do receio da prática institucionalizada gerar contaminação existe uma preocupação com padrões extremamente restritivos. Hoje, a gente já consegue perceber, baseado na ciência, que é possível flexibilizar um pouco mais esses padrões, garantindo outros tipos de barreiras que impeçam ou pelo menos dificultem a contaminação. O quadro regulatório, no meu entendimento, deve andar neste caminho, assumindo um risco aceitável, valorizando os benefícios da prática e não o contrário, ou seja, um risco mínimo fazendo uso de tecnologias extremamente avançadas, com um custo tanto operacional como de implantação extremamente elevado, freando o avanço da prática e impedindo que façamos uso desses benefícios.
Portanto, as nossas diretrizes estão baseadas nesse conceito e eu, particularmente, acredito que é nesse caminho que devemos seguir, de avanço da prática com segurança considerando um risco aceitável. E quando a gente fala de risco, devemos lembrar que no Brasil, somente 50% do nosso esgoto é tratado.
A sociedade pode e vai se beneficiar da universalização em função de uma prática de reuso bem estruturada, planejada e com garantia de segurança a partir de um quadro regulatório bem formulado. Já nos disponibilizamos para o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, para o Conselho Nacional de Meio Ambiente, para a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, e acho que podemos e devemos construir a muitas mãos para que a gente tenha um bom documento, um bom quadro regulatório que possa servir, inclusive, de exemplo para outras outros países em desenvolvimento que também andam aí patinando na construção desse quadro regulatório.
Por fim, deixo um convite para todos que conheçam o Instituto Reuso de Água. Nós temos muito material disponível para acesso, com capacitação ativa e capacitação passiva, e tudo isso de forma gratuita. Temos bastante informação que pode ser útil para todos e acreditamos que essa construção coletiva do conhecimento é o nosso grande objetivo.





