Série Saneas - AESabesp 40 anos

Um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação

Entrevista 3: Como a inovação acelera práticas de ESG no saneamento

Helena Levorato - divulgação (1)

O setor de saneamento e meio ambiente mantém uma relação cada vez mais estratégica com a inovação. Diante de eventos climáticos cada vez mais desafiadores, a demanda por abordagens mais eficazes tem crescido exponencialmente.

Nesta entrevista, a especialista em inovação Helena Levorato, CEO da Sociedade Brasileira de Inovação (SBI), fundadora do programa nacional Mulheres Que Inovam e também diretora do Global Innovation Institute, aborda como a maturidade em inovação impacta diretamente a gestão ambiental. A partir da cultura empresarial, essa abordagem influencia a forma como organizações lidam com resíduos, consumo de água e pegada de carbono.

Confira a entrevista completa abaixo:

Saneas Online – A Sociedade Brasileira de Inovação é referência quando falamos de inovação. Qual é o papel dessa abordagem nos processos de ESG e como ela contribui para a sustentabilidade das empresas relacionadas ao saneamento e meio ambiente?

Helena Levorato – A inovação e o ESG não são agendas paralelas, elas se encontram o tempo todo, especialmente quando falamos de saneamento e meio ambiente. Na Sociedade Brasileira de Inovação, entendemos que empresas que inovam de forma estruturada naturalmente avançam nos três pilares do ESG: elas pensam no impacto ambiental dos seus processos, fortalecem a governança e criam valor social real. No setor de saneamento, isso é ainda mais evidente. Água tratada, esgoto coletado, resíduos gerenciados com responsabilidade, essas não são apenas obrigações regulatórias, são inovações sociais que transformam vidas. Quando uma empresa de saneamento abraça a inovação como cultura, ela passa a enxergar o ESG não como custo de conformidade, mas como estratégia de perenidade, e é exatamente esse salto de mentalidade que a SBI ajuda a promover.

Saneas Online – Uma das principais atividades da SBI é a avaliação de maturidade de inovação. Como é realizado esse processo de certificação em inovação? Pode compartilhar um pouco dos resultados positivos que essa iniciativa tem incentivado na atividade das empresas?

Helena Levorato – A avaliação de maturidade de inovação é, na prática, um raio-x da capacidade inovadora de uma organização. A SBI desenvolveu uma metodologia que olha para as múltiplas dimensões: cultura, processos, liderança, tecnologia, resultados e entrega às empresas um diagnóstico honesto de onde elas estão e, mais importante, um caminho claro para onde podem chegar. O que mais impressiona nesse processo não são os números, mas sim, as transformações que acontecem a partir dele. Já vi empresas que chegaram achando que inovação era só tecnologia e saíram com uma visão completamente diferente sobre pessoas, cultura e processos. A certificação funciona como um espelho e como um mapa ao mesmo tempo. Ela valida o que já existe, mas principalmente acende uma luz sobre o que ainda é possível construir e assim, empresas certificadas passam a ter mais clareza estratégica, mais engajamento das equipes e mais credibilidade junto ao mercado e aos investidores.

Saneas Online – Pensando nos problemas acerca das mudanças climáticas, como a inovação se aplica ao meio ambiente e de que forma essa prática pode ser uma aliada para lidar com essa realidade?

Helena Levorato – As mudanças climáticas são, talvez, o maior desafio de inovação que a humanidade já enfrentou. E o que me preocupa não é a falta de tecnologia para lidar com os problemas, mas sim, a falta de velocidade nas ações concretas. Temos as soluções, então, o que precisamos é de escala, de vontade política e de empresas dispostas a assumir esse papel com mais determinação. A inovação aplicada ao meio ambiente não começa lá no laboratório, ela começa na cultura da empresa, na forma como ela olha para os seus resíduos, para o consumo de água, para a pegada de carbono dos seus processos. Quando uma organização desenvolve maturidade em inovação, ela naturalmente passa a fazer essas perguntas de forma sistemática e é daí que surgem as soluções mais interessantes, não de projetos isolados, mas de uma mentalidade que enxerga o planeta como parte do modelo de negócio, não como algo à parte.

Saneas Online – A partir do programa “Mulheres que Inovam”, a SBI tem sido uma entidade fortemente engajada na qualificação de mulheres em espaços antes majoritariamente masculinos.

Quais foram os desafios que essa iniciativa encontrou ao atuar para fortalecer a atuação de mais mulheres nesse cenário?

Helena Levorato – Quando criamos o programa Mulheres que Inovam, sabíamos que o caminho não seria fácil. O primeiro desafio foi cultural: convencer as próprias mulheres de que elas têm lugar em espaços de inovação, tecnologia e liderança estratégica. Depois de anos de um mercado que as colocou em posições secundárias, deixaram marcas que entram na autoestima, na forma como elas se apresentam, no quanto ousam pedir. O segundo desafio foi estrutural mesmo. Criar um programa com conteúdo de qualidade, acessível, que chegasse a mulheres de diferentes regiões do Brasil e diferentes realidades, isso exigiu criatividade e muito trabalho. Mas sem dúvida, o que encontramos pelo caminho foi algo que nenhum obstáculo poderia vencer: uma sede enorme por conhecimento, por conexão e por pertencimento. Cada mulher que passa pelo programa não transforma só a si mesma, mas ela transforma o ambiente todo ao seu redor. E é isso que me move todos os dias.

Saneas Online – De que forma você acredita que entidades como a AESabesp impactam no desenvolvimento do saneamento no país rumo à universalização?

Helena Levorato  Entidades como a AESabesp são fundamentais porque fazem algo que o mercado sozinho não consegue, que é criar as pontes necessárias. Pontes entre o setor público e o privado, entre o conhecimento técnico e a prática no campo, entre as empresas e a sociedade que elas servem. Acredito que a universalização do saneamento no Brasil é uma meta que exige muito mais do que investimento financeiro, exige inteligência coletiva, colaboração entre atores e uma visão de longo prazo que ultrapasse os ciclos políticos e as metas de curto prazo. Quando uma associação como a AESabesp reúne profissionais, estimula o debate técnico e fortalece o setor, ela está contribuindo diretamente para que essa universalização aconteça de forma mais rápida e mais sólida, e é esse tipo de articulação que transforma política pública numa realidade concreta para quem mais precisa.

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