Especialista em pontos de não retorno climáticos, Marina Hirota defende soluções baseadas na natureza, gestão de riscos e aproximação entre ciência, saneamento e planejamento urbano diante da intensificação dos eventos extremos
Reconhecida internacionalmente por suas pesquisas sobre pontos de não retorno climáticos e resiliência de ecossistemas, Marina Hirota afirma que enfrentar os impactos das mudanças climáticas exige romper as fronteiras entre as disciplinas. Ela é cientista do sistema terrestre, diretora científica do Instituto Relva e pesquisadora afiliada à Universidade de Princeton e à Universidade Técnica de Munique, e construiu uma trajetória que integra matemática aplicada, meteorologia, computação e ecologia para compreender as transformações dos ecossistemas tropicais, especialmente da Amazônia e de biomas adjacentes. Para Marina Hirota, eventos extremos cada vez mais frequentes — como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor — demandam uma abordagem transdisciplinar, capaz de conectar ciência, gestão pública, planejamento urbano e os diferentes saberes presentes na sociedade.
A especialista destaca que as cidades brasileiras precisam acelerar transformações voltadas à adaptação climática, especialmente nas áreas de drenagem urbana, abastecimento de água e gestão de riscos. Entre as prioridades, ela aponta o uso de soluções baseadas na natureza, o planejamento integrado das bacias hidrográficas e a construção de políticas sustentadas pelo conhecimento científico. Nesse contexto, ressalta o papel estratégico de entidades técnicas e instituições do saneamento, como a AESabesp, na criação de espaços de diálogo entre pesquisadores, gestores, trabalhadores e comunidades diretamente afetadas pelos impactos climáticos. Segundo a cientista, soluções mais inovadoras e transformadoras surgem justamente quando diferentes setores conseguem construir respostas coletivas para os desafios do clima.
Confira na íntegra a entrevista, que integra a série especial em comemoração aos 40 anos da Associação dos Engenheiros da Sabesp:
Saneas Online – A senhora tem se dedicado a estudar pontos de inflexão climáticos, resiliência e eventos extremos nos ecossistemas tropicais. Como esses fenômenos já impactam os sistemas urbanos e quais são os principais riscos para setores essenciais, como o saneamento, diante do avanço das mudanças climáticas?
Marina Hirota – A ecologia de ambientes urbanos ainda é um campo menos consolidado em comparação aos estudos voltados para ecossistemas naturais fora das cidades. Por isso, o diálogo com pesquisadores que estudam os ambientes urbanos é extremamente enriquecedor, já que a dinâmica das cidades apresenta características muito particulares.
Quando falamos em pontos de inflexão climáticos ou pontos de não retorno, estamos tratando de processos em larga escala, capazes de propagar perturbações que ultrapassam fronteiras geográficas. O que ocorre no Oceano Atlântico, por exemplo, influencia diretamente outras regiões do planeta, assim como as mudanças no Ártico, na Antártica e no Pacífico Tropical. Esses sistemas estão interligados pela atmosfera e pelos oceanos, de modo que alterações em uma região podem gerar impactos em locais muito distantes.
No caso do Brasil, fenômenos associados ao Pacífico Tropical, como o El Niño, exercem forte influência sobre o clima. Atualmente, há alertas relacionados a um evento de grande intensidade, o que reforça os efeitos extremos já observados no país.
Ao analisar os impactos sobre as cidades, é importante considerar a complexidade dos ambientes urbanos. A impermeabilização do solo reduz a infiltração da água, favorecendo alagamentos mais frequentes. Ao mesmo tempo, há influência das águas subterrâneas e dos rios, que podem transbordar diante do aumento das chuvas. Esses fatores tornam os centros urbanos particularmente vulneráveis aos extremos climáticos.
Os períodos de seca também afetam diretamente o abastecimento de água das cidades e das regiões que alimentam os reservatórios. A maior frequência e intensidade dos eventos extremos já impactam os ambientes urbanos, tanto pela escassez quanto pelo excesso de água. Isso compromete o abastecimento, afeta a qualidade de vida da população e amplia situações de estresse social.
Entre os principais sistemas que influenciam o Brasil estão o Atlântico Tropical, a Amazônia e o Pacífico Tropical, além das interações com as regiões polares. Esses elementos possuem grande capacidade de alterar padrões climáticos e influenciar eventos extremos no país.
Para o setor de saneamento, o desafio é crescente. A variabilidade climática sempre existiu, mas os extremos estão se intensificando. Quando chove, o volume é muito maior; quando há seca, ela se torna mais severa. Isso impõe uma pressão significativa sobre os sistemas de abastecimento, drenagem e tratamento de água e esgoto.
A grande questão é saber se a infraestrutura urbana atual está preparada para suportar extremos climáticos cada vez mais intensos. Adaptar os sistemas de saneamento a essa nova realidade é um dos principais desafios das cidades contemporâneas.
Saneas Online – A partir das discussões apresentadas no relatório 10 New Insights in Climate Science 2025/2026 e na COP30, quais transformações as cidades brasileiras precisam acelerar para se tornarem mais resilientes aos eventos extremos, especialmente em relação à drenagem urbana, abastecimento de água e gestão de riscos?
Marina Hirota – As discussões apresentadas no relatório 10 New Insights in Climate Science dialogam diretamente com os desafios já observados nas cidades brasileiras. Existe hoje uma quantidade significativa de conhecimento científico produzido sobre mudanças climáticas e adaptação, mas ainda há dificuldade em transformar esse conhecimento em ações práticas e políticas efetivas.
Um dos principais desafios é aproximar a ciência dos setores produtivos, econômicos e da gestão pública. O relatório contribui justamente ao sintetizar evidências científicas capazes de orientar transformações concretas baseadas em conhecimento técnico.
Entre os temas mais relevantes destacados pelo relatório estão os impactos do aquecimento global sobre a disponibilidade de água, os eventos extremos e a intensificação das ondas de calor e seca. O aumento recorde das temperaturas em 2024 reforça que esses fenômenos tendem a se tornar mais frequentes e intensos.
Nas cidades, esses impactos se traduzem em ilhas de calor, enchentes, secas prolongadas e pressão sobre os sistemas de abastecimento e drenagem urbana. Ambientes urbanos com poucas áreas verdes sofrem ainda mais com o aquecimento local, afetando diretamente a saúde física e mental da população.
A água ocupa um papel central nesse processo. Ela é necessária para o abastecimento, para a produção de energia, para a agricultura e para a manutenção do equilíbrio climático das cidades. Muitas vezes, porém, não se considera que essa disponibilidade depende diretamente da conservação de florestas, savanas, áreas úmidas e outros ecossistemas responsáveis pela regulação hídrica.
Por isso, uma das principais transformações necessárias envolve soluções baseadas na natureza. O planejamento urbano precisa incorporar áreas verdes, preservar bacias hidrográficas e considerar as regiões que garantam o abastecimento das cidades. É necessário compreender de onde vêm os serviços ecossistêmicos que sustentam os centros urbanos, especialmente a água.
Outro ponto fundamental é a gestão de riscos diante de um cenário de maior incerteza climática. Os modelos climáticos ainda enfrentam limitações para representar plenamente a intensidade e a frequência dos extremos observados atualmente. Isso exige a adoção do princípio da precaução e o desenvolvimento de cenários múltiplos para orientar o planejamento urbano.
Cada cidade possui características específicas e, portanto, demanda soluções próprias. Um mesmo evento extremo pode produzir impactos completamente diferentes dependendo do contexto urbano. Por isso, os planos de adaptação e gestão de risco precisam ser construídos com base em conhecimento científico local e em análises específicas para cada território.
O fortalecimento do diálogo entre pesquisadores, gestores públicos e setores responsáveis pelo abastecimento e drenagem é essencial para ampliar a capacidade de adaptação das cidades brasileiras diante das mudanças climáticas.
Saneas Online – Sua trajetória reúne matemática aplicada, meteorologia, computação e ecologia. Na sua visão, qual é a importância de uma abordagem interdisciplinar para enfrentar os desafios climáticos atuais e como instituições técnicas e entidades do saneamento, como a AESabesp, podem contribuir para aproximar ciência, planejamento urbano e adaptação climática?
Marina Hirota – Hoje é impossível pensar os desafios climáticos a partir de uma única disciplina. Minha trajetória em áreas como matemática aplicada, meteorologia, computação e ecologia mostrou que os problemas ambientais são complexos e exigem diferentes perspectivas de análise.
Mais recentemente, o diálogo com áreas das ciências sociais, como antropologia e arqueologia, ampliou ainda mais essa minha percepção. Cada campo possui sua própria linguagem e forma de interpretar o mundo, mas os desafios contemporâneos exigem justamente essa integração de saberes.
Mais do que uma abordagem interdisciplinar, acredito que o caminho seja avançar para uma perspectiva transdisciplinar, na qual as próprias perguntas já nasçam conectando diferentes áreas do conhecimento. As mudanças climáticas não podem ser compreendidas isoladamente, porque seus impactos atingem dimensões ambientais, sociais, econômicas e culturais ao mesmo tempo.
Nesse contexto, instituições técnicas e entidades ligadas ao saneamento têm um papel estratégico. Organizações como a AESabesp podem contribuir aproximando ciência, gestão pública, trabalhadores e população. É fundamental criar espaços permanentes de diálogo entre pesquisadores, profissionais do setor e comunidades diretamente afetadas pelos impactos climáticos.
A adaptação climática exige ouvir diferentes realidades sociais. Muitas vezes, quem vive os impactos cotidianos das mudanças climáticas possui percepções fundamentais para orientar soluções mais eficientes e inclusivas.
No caso específico do saneamento, os desafios relacionados à água e à temperatura estão diretamente ligados às mudanças do clima. Por isso, promover encontros, oficinas, grupos de trabalho e debates interdisciplinares pode gerar soluções mais inovadoras e transformadoras.
Embora esse diálogo entre diferentes setores possa ser complexo no início, ele amplia significativamente o potencial de construção coletiva de respostas mais eficazes. Quando diferentes atores participam do processo, as soluções tendem a ser mais representativas, mais viáveis e mais capazes de gerar engajamento social.
Entidades do saneamento podem liderar esse movimento, criando espaços de integração entre ciência, planejamento urbano e adaptação climática, além de estimular experiências que possam servir de referência para outras regiões do país.
40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro
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