Sonia Chapman, diretora executiva da Rede Empresarial Brasileira de ACV (Rede ACV), mostra por que olhar para todo o ciclo de vida é essencial para que o saneamento avance rumo às novas metas globais de sustentabilidade.
A transformação do saneamento básico passa por desafios que vão muito além da coleta e do tratamento tradicional no “fim de tubo”. Questões como a prevenção da transferência de impactos ambientais ou problem shifting, a revalorização de subprodutos como lodo e biogás, a responsabilidade compartilhada e a integração real entre saúde pública, meio ambiente e desenvolvimento social estão no centro das discussões que definirão o futuro do setor nas próximas décadas.
Nesta entrevista especial da Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação, Sonia Karin Chapman, diretora executiva da Rede ACV, especialista em sustentabilidade, estratégia empresarial e governança ESG, fala sobre como a metodologia de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) pode revolucionar o planejamento e a gestão das operadoras.
Com uma sólida trajetória executiva em multinacionais e na gestão socioambiental empresarial, Sonia destaca a urgência de enxergar o ciclo completo dos produtos e serviços, no âmbito do conceito do “berço ao berço”, superando a visão restrita do entorno imediato. Nesta entrevista, ela aborda as estratégias para mitigar riscos regulatórios, a oportunidade de inserir o saneamento na cadeia de suprimentos agrícola e industrial, o papel das métricas socioambientais na atração de investimentos e a importância de formar profissionais com uma mentalidade sistêmica diante dos desafios climáticos globais. Confira!
Saneas Online – Sonia, para o leitor que está tendo o primeiro contato com o tema, a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) é frequentemente descrita como a mensuração do impacto de um produto ‘do berço ao túmulo’ — ou ‘do berço ao berço’. De forma prática, como essa metodologia funciona e por que olhar para o ciclo completo é tão diferente de olhar apenas para o momento da fabricação ou do descarte?
Sonia Chapman – A Avaliação de Ciclo de Vida é uma metodologia que demonstra impactos ao longo de todo o processo, gerando um diagnóstico minucioso de onde os mesmos ocorrem e qual a natureza deles. Ou seja: permite que identifiquemos de forma objetiva os responsáveis e as implicações de qualquer atividade. Esse olhar vai muito além do que costumamos dominar mais, o que está na nossa operação, no nosso entorno imediato, ajudando a reconhecer que a maior necessidade de ação pode não estar no que conhecemos melhor.
Saneas Online – Muitas vezes, uma solução parece ecologicamente correta em uma etapa, mas esconde uma pegada pesada em outra. Como a visão holística da ACV ajuda as empresas e governos a não caírem na armadilha de resolver um problema ambiental (como reduzir o consumo de energia) gerando outro pior em outra fase (como aumentar a toxicidade da água ou a geração de resíduos perigosos)?
Sonia Chapman – Essa situação é o que se chama “problem shifting”, ou transferência de problema(s), quando estamos tão focados em reduzir um impacto, que podemos (intencionalmente ou não), gerar um impacto ainda maior em outro elo da cadeia, ou em outra categoria de impacto. O pensamento de ciclo de vida ajuda a mitigar esse risco, uma vez que temos a orientação ao processo como um todo, antes de tomarmos uma decisão/iniciativa.
Mas o pensamento de ciclo de vida não é simples, demanda capacitação, transparência de processos, iniciativa de abordar elos mais distantes da operação, o reconhecimento da necessidade de se rever métricas de sucesso e a competência de celebrar parcerias para o alcance de objetivos.
Saneas Online – Trazendo essa lógica para o saneamento ambiental, o setor lida essencialmente com fluxos de massa gigantescos: captação, tratamento químico, bombeamento e distribuição. Como a ACV agrega valor ao planejamento de uma grande operadora? Ela pode, por exemplo, redefinir a escolha de materiais para redes de distribuição ou o tipo de lodo que uma Estação de Tratamento gera?
Sonia Chapman – Com certeza! Mas a primeira pergunta a fazer é: qual é a função que queremos analisar, e quais as alternativas a esta função? O saneamento para Indústrias tem uma razão de ser completamente diferente do saneamento para a população. Os indicadores de qualidade da água são diferentes, assim como a capacidade de pagamento. A recuperação de uma água poluída, idem. Em cada caso, é possível mensurar o impacto resultante da ação do saneamento, justificando investimentos e, especialmente, a manutenção deles no tempo.
Saneas Online – O saneamento tradicional opera muito na lógica do “fim de tubo” (recolher e tratar o resíduo gerado). De que forma o conceito Cradle to Cradle (do berço ao berço) pode transformar a visão das operadoras, fazendo com que o lodo de esgoto, o biogás e a água de reúso sejam integrados ao ciclo produtivo industrial e agrícola desde a concepção dos projetos?
Sonia Chapman – O primeiro passo é rever o indicador de performance do prestador de serviço: ao invés de metros cúbicos tratados seguindo determinadas métricas de qualidade da água, por exemplo, fornecimento de água para uso industrial, ou receita com venda de biogás. Volume de lodo encaminhado para a Construção Civil, substituindo outros insumos, tradicionalmente utilizados pelo setor. Receita com venda de lodo para substituição de fertilizantes pelo Agro.
Esses seriam indicadores para mostrar o valor do resultado da atividade. Mas, no tempo, seria interessante diminuir a geração de resíduo em si, ou aumentar a usabilidade dele (reduzindo contaminantes, que precisam ser tratados com cloro etc.) com campanhas de conscientização.
Outro campo de oportunidades gigantes é a redução de perda de esgoto, até chegar à Estação de Tratamento de Efluentes. Muito se fala da perda da água na distribuição, em razão de trincas na tubulação, por exemplo, mas a perda de esgoto tem implicações ainda piores, considerando a contaminação do solo e do lençol freático.
Saneas Online – No ambiente corporativo e público, decisões precisam se justificar tecnicamente e financeiramente. Como a aplicação da ACV se traduz em valor econômico para o setor? É possível usar as métricas do Ciclo de Vida para embasar investimentos de longo prazo em infraestrutura urbana, garantindo eficiência operacional e menos riscos regulatórios?
Sonia Chapman – Cada vez mais o olhar de ciclo de vida e a ACV estão embasando Políticas Públicas justamente porque indicam fatores materiais e responsáveis, demonstrando os benefícios de se tornar a adoção deles mais ampla pela sociedade. A PNRS prevê a responsabilidade compartilhada no ciclo de vida, a PNEC indica a ACV como forma de evitar uma ação mirando a Economia Circular apenas, sem se considerar todos os impactos, no ciclo de vida como um todo. Compras Sustentáveis passam por estes conceitos também.
A principal barreira é a preferência por investimentos que tragam visibilidade imediata, deixando ações de “obra enterrada”, como muitas vezes se descreve o saneamento básico, para outro gestor/momento. Se incluíssemos todos os benefícios desta ação, como menos investimentos em saúde pública, maior rendimento escolar (uma vez que as crianças não ficariam doentes, com diarreia, por exemplo), aumento da empregabilidade (em razão de uma maior frequência escolar, mas também para as mulheres/mães, que ficam em casa, cuidando dos doentes, faltando ao trabalho), mas também aumento de receitas com turismo, valorização da região, entre outros. O saneamento teria um reconhecimento que merece pela sociedade e passaria a ser demandado em planos de políticos em períodos de eleição e no decorrer do exercício de seus mandatos.
Um bom exemplo de aplicação com este objetivo é o trabalho do inpEV, que demonstra a cada ano os benefícios de viabilizar a logística reversa de bombonas de defensivos agrícolas por meio de menos pressão sobre o sistema de saúde (antigamente as pessoas utilizavam as bombonas para armazenar água, por exemplo, gerando casos graves de intoxicação), sobre o meio ambiente (o comportamento anterior era enterrar e/ou queimar as embalagens em propriedades rurais) e gerando receita da venda de produtos com conteúdo reciclado. Além do aspecto educativo, por parte de campanhas de conscientização (culminando no Dia Nacional do Campo Limpo, em agosto), promovendo uma transformação de hábitos consistente, para além desta ação, no tempo.
Saneas Online – Analisando a aplicação da metodologia, podemos considerar que a Avaliação do Ciclo de Vida está mais diretamente vinculada à gestão da cadeia de fornecedores das grandes operadoras de saneamento?
Sonia Chapman – Olhar para a cadeia de suprimentos é o passo inicial básico. Por tradição, em grandes corporações industriais, quando o interesse pela sustentabilidade desperta, a tendência é analisar primeiro a própria operação e, em seguida, estender essa exigência aos fornecedores. É uma forma direta de agir: selecionar melhor o fornecedor de insumos químicos ou de energia para reduzir impactos.
No entanto, o diferencial estratégico para o setor de saneamento está no passo seguinte: posicionar-se como um elo relevante para a ponta posterior do ciclo. Ou seja, olhar para o destino do que é gerado no processo. O lodo de esgoto, por exemplo, pode ser direcionado para aplicações úteis em outros setores, substituindo insumos dos quais o Brasil é altamente dependente. Hoje, importamos grande parte dos fertilizantes que consumimos, um mercado que sofre constante instabilidade por conta de conflitos geopolíticos. O setor de saneamento tem a oportunidade de oferecer fertilizantes orgânicos em larga escala; basta reconhecer esse potencial, investir em tecnologia e estruturar a solução.
Saneas Online – Diante da sua experiência em sustentabilidade, qual mensagem ou reflexão você gostaria de deixar como ponto de atenção para os profissionais e gestores do setor de saneamento?
Sonia Chapman – Deixo uma provocação sobre o futuro das metas globais. Recentemente, participei de um painel no Pacto Global, no qual debatedores avaliavam a real efetividade dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Naquela ocasião, defendi um ponto crítico: embora a criação dos ODS, em 2015, tenha sido um marco extraordinário, a forma como eles foram implementados permitiu que governos e empresas escolhessem apenas os seus indicadores “favoritos”, ignorando a interconexão necessária entre todos eles.
A grande lição para o saneamento é a importância de o setor ser muito mais atuante na construção da agenda que substituirá os ODS. A inteligência do ciclo de vida demonstra que os impactos ambientais estão diretamente conectados ao desenvolvimento humano, à saúde pública e aos indicadores sociais.
Além disso, fica evidente que as próximas metas globais precisarão ser mais alinhadas à realidade local. Hoje temos o ODS 6 (Água Potável e Saneamento), mas muitos planos nacionais nem sequer conversam com os prazos e premissas estabelecidos pela ONU, gerando travamentos institucionais. O setor de saneamento precisa estar no centro dessa discussão internacional, pois sua atividade é transversal a quase todos os pilares do desenvolvimento sustentável.
Saneas Online – Para encerrar e celebrando as quatro décadas da AESabesp, que caminhos ou primeiros passos você recomenda para que o profissional de saneamento, seja o engenheiro na planta, o projetista ou o tomador de decisão, passe a conhecer e aplicar a ótica da ACV no seu dia a dia? Qual o principal benefício que esse profissional colherá ao adotar essa mentalidade para o futuro da sua carreira e das nossas cidades?
Sonia Chapman – O primeiro passo é entrar em contato com a Rede ACV! Temos turmas abertas, remotas e gratuitas do workshop de Pensamento de Ciclo de Vida, que já treina os participantes a para considerar os impactos (ambientais, sociais e econômicos) na sua tomada de decisão, de forma mais natural e intuitiva.
Importante inserirmos esta capacitação nas grades curriculares das universidades de Engenharia, Administração, Arquitetura, para que os profissionais já entrem no mercado com esta perspectiva.
O pensamento de ciclo de vida não é complexo, mas demanda a humildade de reconhecermos que não controlamos nada, e que precisamos uns dos outros para avançarmos como sociedade, revertendo tantos efeitos negativos de nossas atividades, que estão se manifestando de forma inequívoca por meio de eventos extremos, cada vez mais frequentes e irreversíveis.
* 40 vozes que ajudam a construir o saneamento brasileiro
A Série Saneas – AESabesp 40 anos: um olhar sobre saneamento, meio ambiente e inovação celebra as quatro décadas da AESabesp, reunindo 40 personalidades que constroem, diariamente, a história do saneamento e do meio ambiente no Brasil.






